14 TÉDIO III O VAZIO DA MAQUINA

TÉDIO

O tédio é uma sensação aflitiva de vazio, de desgosto, de fastio. Todos o conhecem, poucos realmente o entendem. Quando entediados, é comum afirmarmos que a causa disso é o fato de não termos nada interessante de que nos ocuparmos. Contudo, essa é uma interpretação superficial, que confunde causas e efeitos. Na verdade, acontece o contrário: não temos nada interessante de que nos ocuparmos porque estamos entediados. Tão logo o tédio nos abandonar, encontraremos várias ocupações interessantes, que muitas vezes serão exatamente aquelas nas quais não enxergávamos valor algum enquanto estávamos entediados. Um indivíduo entediado vê as possibilidades que se apresentam diante dele como um anoréxico vê um farto banquete. Esperar que alguém entediado tenha motivação é tão ridículo quanto esperar que um anoréxico tenha apetite. Entediados, todas as possibilidades nos enojam, tornando-nos positivamente avessos a quaisquer ocupações. Sabemos que alimentar-se é necessário, e que pode também ser prazeroso, mas sem apetite não há nada a ser feito. O tédio é penoso porque nos paralisa e nos torna insensíveis a quaisquer impressões prazerosas, reduzindo tudo a uma penumbra cinzenta e insípida. Não importam quão longos sejam os períodos durante os quais o experimentamos: nele é tudo irrelevância, e tais vivências simplesmente desvanecerão de nossas memórias. Tudo se converte em fantasmagoria. Esse estado mental que solapa nossa motivação, desmonta nossos objetivos, podendo tornar a vida tão mórbida quanto a depressão ou a privação de sono. Suponha-se que estivéssemos entediados. Ocorre-nos, por um motivo qualquer, ler o livro x ou terminar o projeto x. Nessa situação, a ideia de levar qualquer x adiante nos parecerá simplesmente despropositada — e isso mesmo que tivéssemos o costume de nos dedicar a tais atividades x cotidianamente, por vontade própria. Imersos no tédio, nenhum x nos incita a curiosidade, não vemos qualquer motivo para alcançar objetivos. Sentimos que o resultado, seja qual for, será irrelevante. Vemo-nos impedidos de usar nossas próprias forças, incapazes de encontrar satisfação até naquilo que comumente nos agrada. Sabemos o que queremos fazer, mas, até que o tédio passe, nada pode ser feito quanto a isso. Fazendo uma analogia, nossa situação é semelhante à de um assalariado que não aprecia seu emprego em si mesmo, levando-o adiante apenas em função do dinheiro que recebe pelos seus esforços. Em regra, num emprego, dedicamo-nos a tarefas que, senão pelo salário, nos pareceriam absolutamente detestáveis. Podemos estar certos de que, sem tal compensação, ruiriam praticamente todas as carreiras profissionais como as conhecemos. Nessa ótica, quando entediados, somos como empregados conscientes de que não receberão recompensa alguma por seu esforço — sendo esse o motivo pelo qual não fazemos nada. Vemo-nos subtraídos exatamente daquilo que nos motivava a trabalhar. No caso, a diferença consiste no fato de que o patrão chama-se cérebro e o pagamento são doses regulares de prazer. Entediados, estamos numa situação na qual nosso patrão não vê qualquer utilidade em nos pagar pela realização das tarefas que temos diante de nós — numa espécie de desemprego neuroquímico. Queremos, muito desesperadamente, continuar alimentando nosso vício. Porém, colocados nesse impasse, vemo-nos obrigados a mudar nossa estratégia profissional, sendo o problema central o fato de não sabermos muito bem como isso pode ser feito. A equação do tédio, como vemos, é bastante simples: para que não nos entediemos é preciso que nosmantenhamos ocupados; para que nos mantenhamos ocupados é preciso que encontremos satisfação naquilo que fazemos. O círculo vicioso sustenta-se ou rompe-se em função do valor que enxergamos nessa ocupação. Dentro disso, a natureza da ocupação, em si mesma, é irrelevante — basta que ela nos mantenha em movimento, e estaremos protegidos do tédio. *** Como o tédio evoca a consciência muito real de nossa nulidade, ocupações que insuflem nossa vaidade, nosso sentimento de importância, são algo muito útil para afastá-lo. Nesse sentido, seria obviamente inútil apenas nos elogiarmos: sabemos que isso é trapaça. Não podemos simplesmente imprimir nós mesmos as cédulas com que se compram os prazeres da vaidade. Apenas os elogios genuínos, provenientes do reconhecimento público, nos dão o pagamento de nos sentirmos elogiados. Acreditamos, quase sempre sem razão, sermos dignos de elogio, mas nosso cérebro é prudente nesse particular — nunca compra louvores de procedência duvidosa. Promessas e palavras de honra são irrelevantes à vaidade: sem plateia, o cérebro sequer se dá ao trabalho de negociar. Ele soube, desde sempre, desconfiar de nossa honestidade. Queremos gotas de prazer, e nisso nossos cérebros são mananciais, oceanos bioquímicos de deleites inconcebíveis, mas teremos de merecê-las, cada uma delas. As negociações estão em aberto, mas as condições são rigorosas: não há possibilidade de empréstimos, e nunca o certo será trocado pelo duvidoso. Também no tráfico de drogas biológicas reconhece-se a regra de ouro: aceitam-se somente pagamentos à vista. Isso significa que nossa vaidade nunca será insuflada gratuitamente, sem quaisquer critérios. Para tanto, será necessário que apresentemos testemunhos de sujeitos dignos de confiança. Vindos de nós mesmos, testemunhos favoráveis não valem nada. Testemunhos de amigos, por sua parcialidade, são similarmente desprovidos de valor. Para sermos bem pagos, precisamos arrancar o elogio de nossos inimigos: a garantia provém do fato de nos odiarem. Isso deixa bastante claro o grau de sensatez de nossos cérebros nesse tipo de questão. Sabendo que elogios gratuitos são nozes ocas, e possuidor de um profundo sentido de realidade, nosso cérebro só permite que nos enganemos a nosso respeito na exata medida em que pudermos enganar os demais sobre isso. Nesse contexto, como se vê, não é suficiente que sejamos indivíduos bem-sucedidos: é preciso também que sejamos reconhecidos por isso, para que então nos sintamos reconhecidos. É por isso que riquezas, por si mesmas, não compram prazer algum. Não só ricos, precisamos também nos colocar em situações que nos engrandeçam por isso, do contrário nos veremos mergulhados no tédio de um sucesso nulo e insípido. Assim, não somos fisicamente, mas apenas psicologicamente dependentes uns dos outros — exatamente devido a essas recompensas de prazer que buscamos uns nos outros. Disso decorre nossa natureza social. Com que fim interagimos, senão a esperança de convencer os demais de nosso valor, de sermos elogiados, e assim nos sentirmos bem? Imagine-se, por exemplo, como seria desastroso se houvesse à nossa disposição cápsulas de elogio: destruiriam os alicerces da sociedade. Isso significa que, em rigor, não são importantes os demais, mas apenas que eles nos elogiem, para que assim nos distanciemos do tédio. Mentiras, uma vez refletidas nos demais, bastam para nos convencer e motivar: eis o princípio que move a sociedade como um todo. *** Se formos dados à filosofia, não serão necessários muitos anos para que a vida logo tome o aspecto de uma brincadeira insossa. Porém, para nossos cérebros, ou ao menos para a porção inconsciente dele, não se trata de brincadeira alguma. Ele ainda acredita nessa tarefa com uma seriedade da qual só conseguimos rir. Seja como for, isso significa que não seremos recompensados com fins recreacionais.Seremos recompensados apenas por aquilo que, de algum modo, contribuir à satisfação dos itens que constam na lista oficial de necessidades biológicas. Nesse contexto, nosso cérebro — um educador com a ingrata tarefa de cultivar uma consciência funcional —, emprega o tédio como uma punição bastante modesta, ao menos se comparada às demais formas de sofrimento que possui à sua disposição. Ele não é um sinal de perigo iminente; o tédio se assemelha a um luto em miniatura, a um convite amigável para repensarmos nossas prioridades — antes que a gravidade da situação se converta em algo capaz de nos esmagar. Assim, ao lado da dor, o tédio toma o aspecto de uma advertência preliminar, de uma repreensão amistosa e bem-intencionada. O tédio é calculado a partir de um esboço rápido de despesas biológicas, representando apenas um alerta para não perdermos de vista aquilo que tem importância. Não há, para além disso, qualquer cobrança imediata, senão que façamos nossa parte assim que houver ocasião. Porém, se não dermos atenção ao tédio, logo nossa atenção será dada à dor — e isso nos despertará muito rapidamente. A lucidez nasce da dor. *** O tédio surge, então, quando não temos motivos para acreditar que seremos aplaudidos ao levar adiante quaisquer das possibilidades que temos diante de nós, evocando a consciência da nulidade de nosso valor. Como isso se explica? O mundo é um palco de competições incessantes. Nossos cérebros fazem-nos vítimas do tédio com a finalidade de nos proteger da bancarrota. Naturalmente, quando falamos de nosso próprio cérebro em terceira pessoa, na verdade nos referimos aos instintos. Não obstante, designá-lo como o “patrão” de nossas consciências ainda é algo bastante acertado. A consciência, dotada de uma perspectiva bastante limitada do organismo como um todo, tem o aspecto de uma serviçal dos instintos. Abandonada a si própria, não sabe que rumo tomar: precisa de um mestre para guiá-la. Assim, embora relativamente independentes, a consciência e os instintos são duas forças feitas para trabalhar em conjunto. Os instintos, encerrados em seus grandiosos, porém primitivos gabinetes, não lidam diretamente com a realidade prática, limitando-se a estipular ordens e prazos. Cabe à consciência, seu único empregado, encontrar soluções e resultados aceitáveis. Assim, no traçar objetivos, a consciência em geral tem pouca voz, limitando-se a distinguir os melhores meios de alcançá-los. Muitas vezes, em virtude dessa hierarquia, nós nos sentimos como que espezinhados por ordens incoerentes. Não obstante, é justo que a consciência não tenha muita escolha, pois sua vista é curta e seus motivos, em regra, são mesquinhos. Sua preocupação é sempre a mesma: a próxima dose de prazer — ignorando todo o restante da equação. Podemos estar seguros de que a consciência, sozinha no controle de nossas vidas, seria a morte certa. A natureza, como vemos, estabeleceu essa estrutura dual e hierárquica de nossas mentes, e isso sempre nos guiou. Há, contudo, uma alternativa moderna à satisfação de nossos vícios: mudar de fornecedor. Aprendemos a cunhar moedas falsas, e com elas ludibriamos o cérebro — isto é, recompensamo-nos artificialmente injetando valor falso em nossos sistemas. Por sua evolução cega, a natureza não poderia antever essa possibilidade — do contrário ela nos seria vedada. Como nossos cérebros pensam ser os únicos fornecedores de narcóticos aos quais temos acesso, isso nos abriu uma janela de possibilidades interessantes, porém perigosas. Por exemplo, suponha-se que, para burlar o tédio, tenhamos realizado uma fraude química. Qual será o resultado? Acreditando tratar-se de cédulas emitidas por ele próprio, o cérebro faz as contas e, vendo o lucro repentino, mostra- se satisfeito: inundar-nos de prazer é o mais justo pagamento. Resulta a sensação de que os problemas, todos, estão resolvidos. Como a fraude é um atalho sedutor, contraímos dívidas cada vez mais vultosas. A realidade, seja qual for, é ignorada — pois nossos instintos estão a celebrar. Não tarda, contudo, que nossas empresastornem-se extremamente instáveis, pois, em vez de nos esforçarmos a fim de consolidá-las legitimamente, dedicamo-nos simplesmente ao ócio, sem que nos tenha sido garantida qualquer segurança por meio do trabalho. Nessa situação, o vício nos transforma rapidamente em empresas de fachada. Os incontáveis casos de vidas destruídas pelo vício deixam claro que nossos cérebros estavam com a razão ao não nos permitir manusear diretamente as notas com que se compram os prazeres. Na empresa de nossos corpos, a natureza nos fixou o justo cargo de secretários. A consciência, com apenas algumas décadas de experiência e visão limitada, não tem competência suficiente para tomar decisões importantes quanto ao corpo em que está instalada. Posta ao lado dos instintos, a consciência é uma criança — não possui maturidade para quase nada, menos ainda para compensar-se com prudência. Nossos instintos, por outro lado, embora algo desatualizados, são altamente qualificados na tarefa de administrar corpos, pois isso vêm fazendo há bilhões de anos. Seu diploma são nossos genes, emitidos pela seleção natural. Instintos podem não enxergar o agora com clareza, mas aquilo que conhecem reflete as necessidades mais universais no tocante à sobrevivência — e dentro disso os modismos da consciência são irrelevâncias. *** Já descrevemos suficientemente bem, do ponto de vista da introspecção, a natureza do tédio, e o modo como este embota nossa sensibilidade. Tentamos discernir, ainda que vagamente, a relação do tédio com nossas necessidades biológicas. Embora isso tenha exigido o emprego de uma linguagem predominantemente subjetiva, passaremos agora a uma postura mais objetiva. Sintetizemos tudo o que foi dito até agora da seguinte forma: tédio é uma aflição de natureza química. Numa palavra: abstinência. Partindo disso, voltemo-nos àquilo que a compreensão do tédio nos revela numa ótica mais ampla: a natureza química de tudo aquilo que nos move. Para evitar confusões, já que são muitos os tabus envolvidos, primeiramente vejamos a questão do seguinte modo: nosso DNA tem a receita para a construção de um cérebro capaz de sintetizar estimulantes, calmantes, analgésicos, alucinógenos, anti-inflamatórios e tudo o mais que pudermos imaginar nesse sentido. Trata-se, de fato, de uma completíssima farmácia biológica à nossa disposição. Tais substâncias, conforme necessárias, são produzidas pelo organismo, fazendo circular em nossa corrente sanguínea um verdadeiro coquetel de drogas naturais. Sabemos da utilidade disso tudo à sobrevivência, mas qual é a função de tais elementos à consciência? Permitir o ajuste de nossa sensibilidade às circunstâncias particulares, fazendo com que nossa percepção da realidade se ajuste às nossas necessidades. Isso, por sua vez, tem a óbvia função de adaptar nosso comportamento às situações em que nos encontramos. Para ilustrar a prática, suponhamos o seguinte: estamos caminhando por um lugar qualquer e, repentinamente, topamos com a imagem de um leão. Como é que sabemos, diante dessa imagem, o que devemos sentir ou pensar? Para vê-la, usamos os olhos — e para julgar seu significado? Usamos a sensibilidade, usamos as emoções e os sentimentos — os quais são regulados pela química cerebral. A mera imagem do leão, por si mesma, não nos diz nada sobre o que devemos sentir — mas o medo nos diz que correr é exatamente o que devemos fazer. Assim, dada uma situação qualquer, é a configuração específica das substâncias químicas presentes em nossos cérebros que determina de que modo vamos sentir essa situação, em que sentido vamos pensá-la, em que informações focaremos nossa atenção. É a química cerebral aquilo que nos permite sentir as situações, assim como os olhos nos permitem vê-las. Trata-se daquilo que dá cores ao nosso mundo afetivo. Nesse sentido, assim como podemos ter diferentes versões de uma mesma canção, nosso maquinário mental, sob influências químicas específicas, cria diferentes “versões” a partir dos mesmos fatos. Tracemos um paralelo para entender melhor tal processo. Sabemos que, quando a realidade estimulanossos sentidos, isso cria um sinal, como um instrumento de cordas ao ser tocado. O sinal de áudio, por sua vez, pode sofrer vários tipos de processamento, mas só ouvimos o resultado final, aquilo que os alto- falantes produzem: vibrações sonoras que, uma vez ordenadas, ganham sentido, tornam-se música. O mesmo ocorre em nossos cérebros. Nossa percepção da realidade é modulada por uma orquestra química, e vivemos apenas o resultado final disso, que é o que nos permite experimentar o sentido, a “música de fundo” da situação. No dia a dia, quando estamos motivados, perseguindo nossos objetivos, estamos sob a ação de constantes recompensas de prazer. Então, quando estamos desmotivados, sentindo o peso do tédio, o que estamos experimentando? Um quadro de abstinência natural. O tédio, nessa ótica, poderia ser entendido como um sintoma de abstinência química, e não fazemos tal afirmação num sentido vulgar, referindo-nos à dependência de drogas sintéticas, mas à nossa dependência de drogas naturais, criadas por nosso próprio organismo. Drogas artificiais, sejam quais forem, só funcionam porque nosso cérebro está arquitetado para responder a drogas naturais similares. É evidente que, se não houvesse em nossos cérebros receptores para tais substâncias, elas simplesmente não funcionariam. Assim, devemos ter em mente que drogas naturais são parte da “linguagem” que constrói nosso mundo afetivo. Nosso cérebro pode criar naturalmente tudo o que sentimos com drogas sintéticas: basta saber como manipulá-lo. Similarmente, tudo o que sentimos naturalmente pode ser reproduzido com drogas sintéticas: basta saber qual injetar. Assim como o amor pode ser causado por uma pessoa, pode ser também causado por um comprimido de ecstasy; assim como um desafio pode nos motivar, também pode uma cápsula de anfetamina. Uma sensação induzida por drogas sintéticas não é “falsa”, assim como outra, induzida naturalmente, não é “autêntica”. Sensações são fatos concretos, fenômenos neuroquímicos — e nessa equação não há espaço para considerações morais. Entre vícios naturais ou artificiais a única diferença tangível está no fato de que o cérebro, enquanto fornecedor, costuma ser mais honesto e confiável que a maioria dos indivíduos, dopando-nos na medida certa e somente com substâncias de boa procedência, pois ele próprio as sintetiza. Assim, drogas são elementos que a própria natureza desenvolveu com a finalidade de orquestrar nossas vidas afetivas. Elas não são “opcionais”. Sem tais substâncias, não seríamos, como se pensa, indivíduos socialmente responsáveis, mas vegetais inertes, insensíveis a qualquer experiência dotada de sentido. *** Agora podemos, com toda a calma, afirmar todos dependem de drogas. Não há como escapar do fato de que, por natureza, e sem exceção, somos todos viciados. Torna-se, nesse sentido, irrelevante o fato de certo quadro de dependência haver se estabelecido natural ou artificialmente. São igualmente viciados os que buscam euforia saltando de paraquedas, jogando videogame ou usando estimulantes. São igualmente viciados os que buscam a paz através da meditação, do exercício físico, do uso de derivados de ópio. Nessa ótica, acreditar que o uso de drogas seja imoral torna-se tão despropositado quanto acreditar que haja algo imoral no fato de alguém se exercitar ou se apaixonar. A moral só pode ser inserida na equação para julgar as consequências sociais desses fatos, sendo que dar nomes diferentes aos vícios naturais e aos artificiais é uma questão meramente política. Se o fazemos, é apenas por conveniência, pois quem consegue governar a vida dependendo somente de drogas endógenas costuma ter um comportamento mais estável e previsível. A realidade incontornável de nosso vício, entretanto, permanece a mesma. Tendo isso em vista, não espanta que vícios naturais possam acarretar consequências tão desastrosas quanto os artificiais; não espanta que possamos suprir carências naturais artificialmente, ou vice versa.Sejam as substâncias de origem interna ou externa, os mecanismos cerebrais de recompensa e punição ativados são os mesmos. Aquilo que, por exemplo, chamamos de “saudade”, não costuma ser mais que tédio romantizado. Senão, vejamos: a saudade diz respeito à ausência de algo que nos dá prazer. Acostumamo-nos a usar certa pessoa como fonte de satisfação e, na ausência dessa pessoa, ficamos ansiosos, às vezes desesperados, buscando de todas as formas reencontrá-la, sem conseguir por um momento tirá-la de nossas mentes. Claro que, uma vez a encontremos, a saudade desaparece. Não acontece o mesmo com qualquer outra droga? Basta substituir “saudade” por “abstinência” e “pessoa amada” por “maço de cigarros” para compreender que ambos os casos se reduzem ao mesmo processo. Aliás, quando encaramos a saudade como um quadro de abstinência, fica óbvio o motivo pelo qual o melhor meio de superar a ausência de uma pessoa é substituí-la por outra. Sabemos, por experiência, que isso funciona, mas apenas agora entendemos o porquê. *** Tendo isso em mente, retomemos o caso do tédio. Parece-nos que o melhor meio de driblá-lo naturalmente seria adquirir a capacidade de nos manipularmos voluntariamente, de nos valermos da inteligência para encontrar meios práticos de levar nossos cérebros a reproduzir os estados mentais que nos agradam. Isso porque, se nosso cérebro é capaz de produzir naturalmente todas as sensações que experimentamos, bastaria desenvolver técnicas que nos permitissem controlá-lo com precisão, e a felicidade estaria diante de nós como uma possibilidade real e gratuita. De início, parece uma ideia promissora, mas isso funciona? Ora, claro que funciona. Aliás, na arte de controlar-se há muitas opções, e todas funcionam. Não apenas técnicas práticas, mas também o autoengano dá resultados; sabemos disso. Trata-se de um fato inegável que o efeito placebo, apesar de basear-se em crenças falsas, libera substâncias muito reais. Porém, ao levar tal ideia aparentemente revolucionária à prática, não estaríamos realizando nada de novo, pois isso a religião já faz há milênios. As “ciências divinas” são especialistas nesse particular: basta ligarmos os pontos para percebê-lo. Religiões sempre estão envolvidas com o “transcendental” e com “realidades paralelas”. Valorizam a autoridade, a confiança e o além. Por quê? Sabemos que, ao nos doparmos por meio de procedimentos artificiais, induzimos uma alteração em nossa química cerebral, nossa visão da realidade é distorcida rapidamente. Para indivíduos simplórios, sem qualquer noção de como a mente funciona, qual é o resultado? A impressão de haver ingressado em “outra” realidade, ou de ter captado certas “energias ocultas”. O além pode, nessa ótica, ser entendido como uma interpretação simbólica dessas experiências alucinatórias, sendo a teologia a área que teoriza em cima desse tipo de fantasia. Parece evidente que a religião existe como uma sabedoria popular envolvida no emprego desses vícios calculados, todos indiretamente vinculados aos benefícios do efeito placebo, e nada disso nunca teve relação com a origem do universo, com o mistério da existência, com deuses ou espíritos. Tudo isso são planos de fundo. Nossas ideias religiosas tradicionais como salvação, bem-aventurança, iluminação, relação com Deus, verdades reveladas, intervenções e inspirações divinas são apenas alegorias que giram em torno da utilização do placebo com fins sociais, recreacionais e motivacionais. A história da fé, das religiões, da metafísica, quase poderia ser resumida aos métodos que inventamos ao longo do tempo para nos doparmos naturalmente. Assim, se a fé consola, se a meditação acalma, isso ocorre pura e simplesmente porque rezar e meditar são meios de induzir estados mentais que consideramos agradáveis, arrancando recompensas específicas de nossos cérebros. Dentro disso, Deus nunca passou de um grandioso pretexto, pois o fato é que verdades reveladas não nos revelam nada — só nos dão “boas sensações”. Invejamos nas catarses místicas dos santos o mesmo que invejamos em junkies com agulhas espetadas nas veias: prazer gratuito. E quando viciados superam sua dependênciapor meio da fé, não se trata de milagre algum: apenas mudaram de traficante. Isso tudo pode parecer uma argumentação delirante. Porém, se o objetivo da religião não fosse dopar os indivíduos, alucinações, experiências místicas, paz na alma, sucesso e felicidade pessoal não seriam vistos como argumentos em favor da veracidade da religião. Ninguém, ao buscar religiões, está em busca da verdade, e sim de felicidade, e isso deixa perfeitamente claro que ter fé se trata de maximizar as possibilidades de sucesso no emprego do efeito placebo. Como a eficiência do placebo está intrinsecamente ligada à nossa capacidade de acreditar — não de saber —, a veracidade da crença religiosa torna-se irrelevante nesse particular. O conteúdo da crença é simplesmente gratuito, pois não passa de uma metáfora, de um simbolismo à qual a convicção pode fixar- se para alcançar o resultado desejado — coisa que será um benefício prático qualquer, pois é óbvio que, se almejassem conhecimento, se dedicariam ao estudo. Muitos criticam, não sem razão, a cegueira causada pela fé. Porém, tendo em vista que a eficiência do efeito placebo depende exatamente da firmeza da convicção, faz perfeito sentido que a fé não dê importância aos fatos, pois sua função não é conhecer, mas exercer controle sobre nosso mundo mental. Apenas por isso na religião a dúvida é um pecado, e também por isso se prega “desprendimento” em relação ao mundo material, bem como submissão à autoridade. Quem acredita quer resultados, não explicações. Basta ter fé: compreende-se agora o que isso significa? Deus existe para tornar a fé possível, e não o contrário. Milagres são os casos em que o efeito placebo deu resultados, e isso é prova suficiente da existência de Deus. Chorem os ateus, mas a crença funciona, do contrário não haveria tantos viciados em fé. Observemos apenas que, assim como usuários pesados de LSD, aqueles que utilizam muita fé dificilmente retornam à realidade. Incapazes de administrar seu vício, a depender de seu caráter, tornam- se santos ou fanáticos. *** Feitas tais observações, entendemos melhor o quanto a química cerebral governa nossas vidas cotidianas. Conseguimos distinguir como, na vida prática, nossas ações e crenças giram em torno de uma compreensão vaga e intuitiva de como podemos extrair recompensas de nossos cérebros, usando suas potencialidades em nosso favor por procedimentos indiretos, sendo a religião um ótimo exemplo disso. Contudo, antes de encerrarmos o assunto, façamos mais alguns comentários, não sobre os tolos, mas sobre os sábios. Ficamos algo perplexos ao perceber como é frequente os grandes sábios declarem sentir inveja dos ignorantes. Entretanto, ao nos tornamos sábios, descobrimos que isso ocorre porque ilusões otimistas são entorpecentes simples, baratos e eficientes. Em maior ou menor grau, sabemos que, quando destrinchamos uma ilusão racionalmente, quando deixamos de acreditar e passamos a entender, isso dissipa muito do conforto que proporcionava. Nessa ótica, considerando o quanto dependemos de ilusões, é natural que o niilismo, ao proceder em sua sóbria e inflexível fiscalização da realidade, tome o aspecto de uma postura extremamente ameaçadora aos que dependem do narcotráfico divino. Sabemos como é aflitivo ver a razão jogar nossas crenças na privada, pois sem elas resta-nos apenas uma lamentável e oca existência. Assim, nosso aferro apaixonado às ilusões não se trata realmente da necessidade de acreditar no conteúdo de nossas convicções, mas de nossa incapacidade de permanecer indefinidamente sóbrios diante do nada. Gostemos ou não, iludir-se é necessário, e é notável como discussões sobre o assunto erram o alvo. A crença ou descrença em deuses, por exemplo, não tem relação alguma com nossa curiosidade a respeito da origem do universo. Se Deus não houvesse criado o mundo, isso pouco importaria. Então, se tivermos o cuidado de analisar os motivos pelos quais, sem qualquer evidência, se aceita a existência de Deus como um fato, isso deixará claro que Deus provém de nossa necessidade de acreditar, de efetivamentedependermos dessa ilusão para levar a vida adiante, como quem tem na fé o princípio ativo, nos dogmas o excipiente e na sua religião particular o frasco de pílulas para as misérias da existência. Não importa realmente qual a superstição: nenhuma crença sustentada pela fé tem seu valor medido por quanto faz sentido ou por seu caráter explicativo, mas por quanto conforta. Tanto isso é verdade que religiosos trocam de crença sem nenhuma dificuldade, pois muda a cor das pílulas, mas o princípio ativo permanece o mesmo. O importante é ter fé, não importa em qual deus. Certos religiosos são, embora outros não, tolerantes em relação aos demais tipos de crença. Contudo, todos são intuitiva e uniformemente intolerantes em relação aos descrentes. Espanta grandemente aos que dependem de crenças que se possa viver sem nenhuma, e que pessoas assim não sejam monstros. Viver sem fé parece-lhes tão absurdo quanto viver sem amigos — mas essa ótica é algo perfeitamente compreensível, até mesmo previsível. Sabemos que Deus é um pretexto para nos iludirmos com firmeza, não uma fonte de esclarecimento, e sabemos que viciados crônicos não têm a opção de abandonar o vício voluntariamente, tampouco a de ser imparciais quanto àquilo a que se agarram para viver. Na prática, não importa realmente ao que se agarram, desde que permaneçam agarrados a algo. Isso é ter fé. Tal perspectiva ficará ainda mais clara se tivermos o cuidado de observar que a religiosidade, bem como o ateísmo, não é efetivamente uma escolha voluntária que se faz. O ateísmo só se torna possível quando a crença em Deus torna-se desnecessária. A solidão, pelo mesmo motivo, só se torna possível quando amigos tornam-se supérfluos. Claro que, uma vez ateus, parece-nos inconcebível que se acredite nesse tipo de coisa — ao menos até percebemos que entre crer e descrer não se tem escolha alguma. Assim como o tabagismo, a religiosidade não faz sentido algum, mas ambos são vícios adquiridos que dão prazer, e são igualmente difíceis de abandonar. *** Indivíduos racionais nunca escolheram ser incapazes de se dopar com ilusões infantis, bem como religiosos nunca escolheram ter fé. Nenhum dos dois tem a liberdade de mudar voluntariamente o modo como seu cérebro desde sempre se habitou a funcionar. Porém, como precisamos de ilusões para viver, cada qual, de acordo com sua inteligência, se vê obrigado a empregar métodos diferentes para suportar a existência. É inútil insistir: não conseguimos ter fé. Nossa única alternativa passa a ser buscar consolo no esclarecimento, mas como? Só causa miséria a lucidez diante de um mundo miserável. Então, se não conseguimos contornar esse problema nos envolvendo com ilusões absurdas, passamos então a nos envolver com ilusões sensatas, que satisfazem nossa inteligência. Mentiras simplesmente não nos cativam — nos enojam. Assim, como não conseguimos nos iludir com falsidades, iludimo-nos com o seu oposto: a verdade. Encontramos no conhecimento o que os tolos encontram na fé, buscamos na honestidade o mesmo que os demais no engano, entendemos de olhos abertos como se consolam os vendados. Aprendemos a suportar a vida à nossa maneira. Se hoje temos uma consciência tranquila diante do fato de não precisarmos ter fé, isso ocorre porque nos bastam farmácias e bibliotecas. Nossos milagres estão em blisters. Concluímos em vez de acreditar, refletimos em vez de suplicar. O fato é que nunca teríamos aceitado tão tranquilamente a morte de Deus se não dispuséssemos de meios seguros de substituí-lo. No lugar do jardim do Éden, colocamos o jardim da filosofia, e tanto um como o outro servem apenas para nos distrair, para esconder o desfiladeiro niilista. Sabemos que, em nossas vidas, a filosofia, a reflexão abstrata, cumpre o mesmo papel que a religião, e ambas as coisas não passam de meios de fugir da realidade. Reconhecemos que nem a filosofia nem a religião nos levarão a lugar algum — apenas nos distrairão do tédio. Parece pouco, mas basta. Somos humanos, e uma existência decente é tudo o que esperamos. Como temos farmácias, o autoengano tornou-se dispensável. Como temos inteligência, encontramosconsolo na reflexão, e sentimo-nos plenos por podermos levar adiante nossa inclinação natural à honestidade. Nessa perspectiva, a filosofia seria como uma “irmã ateia” da religião. Religiosos e filósofos, cada qual ao seu modo, têm seu consolo onde o encontram — na contemplação mística ou na intelectual. Isso deixa claro o motivo pelo qual, embora racionais, considerações filosóficas sobre a realidade costumam ser vazias e irrelevantes. Assim como religiosos, filósofos em grande parte perdem-se da realidade — e gostam disso. A filosofia nos diverte, mas dificilmente nos esclarece sobre o mundo, pois é apenas um exercício vazio de pensar com clareza, como jogar xadrez. Por isso, com razão, diz-se que ela é a ciência com a qual ou sem a qual o mundo continua tal e qual — nada poderia ser mais acertado. Foram apenas os cientistas os que melhor souberam se proteger desse tipo de extravio, pois tiveram o esclarecimento de unir o útil ao agradável por meio de um método que mantém seus pensamentos com os pés no chão. A conclusão é a seguinte: a fé conforta indivíduos vulgares; a reflexão conforta indivíduos inteligentes. A diferença é que apenas os últimos podem confessá-lo: a busca pela verdade é o pretexto dos intelectuais. Nessa situação, como a condição de nosso bem-estar é o pensamento, em vez de fé, precisamos cultivar a dúvida: é nossa salvação manter nossos cérebros em atividade, sendo a filosofia a área que melhor cumpre essa função. Portanto, não de acreditar, temos necessidade de duvidar: crentes às avessas, qualquer certeza nos asfixiaria. Pensar perigosamente pode ser encarado como um esporte radical, como uma terapia, como uma fuga — isso depende do ponto de vista. Só não podemos negar que seja prazeroso e um ótimo sentido para a vida — do contrário não haveria tantos que compulsivamente se dedicam à atividade. Imersos em reflexões, gostamos de pensar perigosamente, e dúvidas nos parecem irresistíveis. Porém, com o tempo, em vez de apenas nos distrairmos com leituras, contemplando as aventuras intelectuais dos demais, partimos às nossas próprias: arriscamo-nos diariamente problematizando a existência. E como os problemas intelectuais são os mais urgentes aos pensadores, buscar sua solução passa a ser uma tarefa importantíssima — e assim nos distanciamos do tédio. O prazer da reflexão é semelhante ao de colocar o pé para fora da coberta num dia de inverno. Feito isso, dedicamo-nos a encontrar um meio de aquecê-lo sob o manto da verdade. O desafio está em conseguir fazê-lo a tempo e racionalmente, sem permitir que a dúvida nos mantenha descobertos por muito tempo. Assim, uma vez descobertos, pensar torna-se urgente, e passamos a buscar soluções, ainda que provisórias, para o problema que nós mesmos inventamos — mesmo porque soluções finais seriam desastrosas, o ponto final de um jogo que não conseguimos abandonar. Nesse processo, só precisamos de duas coisas: da dúvida e de um pretexto para superá-la. Nisso consiste a busca pela verdade, uma aventura inútil à qual nos lançamos voluntariamente a fim de nos distrairmos do tédio. *** Como vemos, faz bastante sentido ver a busca da verdade como uma alternativa sensata à crença em Deus. Pois, incapazes de nos enganarmos, substituímos o placebo pelo fármaco. Incapazes de acreditar, iludimo-nos com conhecer. Esse é o sentido da vida dos intelectuais. Conhecer é apenas um pretexto. A tecnologia é apenas uma consequência. O objetivo sempre foi ter algo interessante para fazer. Portanto, se nossa natureza nos conferir afinidade para tal, o estudo e a reflexão mostram-se um modo bastante promissor de nos tornarmos viciados autossustentáveis. Dispondo de um quarto vazio, de uma biblioteca cheia, de um cérebro curioso e criativo, teremos diante de nós a oportunidade de buscar o aprazível vício da intelectualidade. Uma vez alcançado esse estado de dependência de reflexão, ficará em nossas mãos a manutenção do círculo vicioso que nos livra do tédio. Estaremos fora de seu alcance enquanto formos capazes de manternossos cérebros em atividade, coisa que, de início, podemos fazer facilmente com leituras. Nessa situação, em vez de conversar sozinhos e de recitar superstições ignorantes, conversamos com filósofos esclarecidos e cientistas instruídos que cativam nossa inteligência, e com isso estará garantida nossa dose diária de vacina antitédio. Quando precisarmos de milagres, não haverá necessidade de nos enganarmos: bastará irmos à farmácia. O único problema da intelectualidade consiste no fato de que esse hábito costuma conduzir à solidão, e isso nos causará tédio devido à fase inicial de abstinência de elogios. Há, entretanto, vantagens consideráveis em submeter-se à reeducação artificial da vaidade que torna a solidão possível, pois assim poderemos substituir dois vícios por apenas um: teremos livros como amigos e reflexões como atividade. Apenas assim, ainda que sozinhos, nos sentiremos acompanhados em nosso vício intelectual. Claro que, a princípio, tal postura talvez pareça impraticável, mas não é. Sabemos que a vida é injustificável. Porém, sem vícios, ela se torna também insuportável. Para suportá-la, precisamos de vícios, sendo a vaidade apenas mais um deles — um vício que, como qualquer outro, pode ser substituído. A convivência não é uma necessidade, apenas um vício que temos o hábito de suprir usando outras pessoas. Trata-se de algo natural, porém não necessário. Recorrer a amizades quando não sabemos que fim dar às nossas vidas é tão arbitrário quanto recorrer a cigarros quando não sabemos que fim dar às nossas mãos. Em ambos os casos, tudo o que temos é um padrão de dependência difícil de ser quebrado. Em todo caso, se quisermos ter amigos, podemos tê-los; porém, se não quisermos, não precisamos. Também não precisamos de cigarros; porém, se quisermos fumá-los, podemos. A intelectualidade não nos tornará misantropos, incapazes de quaisquer amizades, assim como não nos tornará alérgicos a tabaco. Cultivar amizades sempre será uma possibilidade. Porém, se não as tivermos, simplesmente não farão falta. Nesse sentido, o ponto a ser salientado é que um vício que independe da opinião alheia nos faz independer dela, uma vantagem muito considerável do ponto de vista da sustentabilidade de nosso bem- estar. *** Talvez compreendamos essa postura com maior clareza se traçarmos uma distinção entre o que precisamos de fato e o que apenas sentimos que precisamos. A ideia é a seguinte: há necessidades que possuem realidades por detrás, como a fome, a sede, o sono, a respiração; e há necessidades que são apenas representações de realidades, como o sexo, a amizade e o lazer. A fome, por exemplo, não pode ser driblada em circunstância alguma, pois ela reflete uma necessidade real — nossos corpos não funcionam sem energia, e não há sequer sentido em considerar a possibilidade de vivermos sem nos alimentarmos. Então, mesmo se suprimíssemos o sinal da fome, vivendo num agradável estado de constante saciedade, eventualmente morreríamos de inanição. Agora pensemos nas necessidades que são meras representações. Se suprimirmos o lazer de nossas vidas — ou o sexo, ou as amizades —, de tal forma que essa carência não seja sentida por havermos suprimido esse sinal — no mesmo sentido em que se pode suprimir a fome —, não haveria quaisquer consequências. Nessa situação, com tais necessidades satisfeitas, viveríamos com a sensação de que somos “turistas”, e nunca nos ocorreria pensar que talvez precisássemos de lazer. Igualmente, não faríamos sexo porque já nos sentiríamos sexualmente satisfeitos o tempo todo. Então, se já vivemos satisfeitos, que falta tais coisas fariam? Nenhuma, pois não são necessidades de fato. Pelo contrário, são necessidades que nosso próprio cérebro cria, e que nosso próprio cérebro decide quando foram satisfeitas. Tendo isso em mente, podemos concluir que, exceto em seus primeiros anos de vida, o homem não precisa da sociedade, não literalmente. Mas então por que as pessoas buscam a socialização? Para satisfazer algum tipo de carência, evidentemente. Tentemos ilustrar a ideia com uma visão prática.Imagine-se que estamos nos sentindo solitários. O que isso significa? Nada; uma sensação de mal-estar; uma angústia. Na esperança de resolver o problema, saímos à rua. Conversamos com alguns conhecidos e, certo tempo depois, passamos a nos sentir bem. O que isso significa? Nada; uma sensação de bem- estar; um prazer. Imagine-se agora que, em vez de sairmos em busca de companhia, houvéssemos ido ao cinema. Sentamo-nos na poltrona, assistimos ao filme e, eventualmente, passamos a nos sentir bem. O que isso significa? Nada; uma sensação de bem-estar; um prazer. Nessa situação, podemos perceber que nossa satisfação na verdade não depende das pessoas em si, mas meramente do fato de elas se prestarem como um objeto do qual possamos nos ocupar, assim como podemos nos ocupar de livros e de filmes. Então, se temos essa necessidade de nos ocuparmos, pessoas são um meio, filmes e livros são outro meio. Se temos amigos cultos porque gostamos de debater ideias, e se livros nos dão esse mesmo prazer, dá no mesmo se usamos livros ou pessoas. Socializar-se é ocupar-se de pessoas, e gostamos disso não pela companhia, mas pelo alívio do tédio, que é exatamente o mesmo prazer que intelectuais encontram na reflexão — sendo essa a razão pela qual ambas as coisas tendem a ser mutuamente exclusivas. Será inevitável pensarmos que, apesar de funcional, essa é uma visão destituída de significado. Porém, a falta de significado é uma coisa com a qual já deveríamos estar familiarizados: significados são crendices. Nossas necessidades sociais são todas puramente psicológicas. Então, se pudermos satisfazê- las sozinhos, a solidão se revela uma possibilidade perfeitamente tangível e emocionalmente equivalente à socialização. *** O percurso que fizemos parece ter sido bastante esclarecedor, permitindo-nos alcançar algumas conclusões certamente dignas de nota. Haveria, claro, muitas outras possíveis ramificações a serem exploradas. Porém, para nossos fins, isso seria estendermo-nos desnecessariamente sobre detalhes pequenos. A partir da ótica que esboçamos, é mais sensato deixar que cada qual trace, segundo seus interesses, as relações que julgar mais pertinentes. Como vimos, a natureza sempre nos forçou a conquistar nossas pequenas doses de satisfação por meio do trabalho duro. Porém, ao longo do tempo, descobrimos que podemos encontrar doses adicionais em religiões, em plantas alucinógenas, em esquinas escuras, em farmácias, e até mesmo em sistemas filosóficos. Parece óbvio que a humanidade sempre viveu para se dopar, ainda que prefiramos chamar isso de “busca pela felicidade”, de “viver intensamente”, de “sonhar alto”. Ao encontrar, por exemplo, um indivíduo inflado por devaneios românticos, percebamos o curioso fato de que o “sentido” de sua vida se assemelha à tortuosa jornada de um viciado em busca de uma droga perfeita cujo efeito nunca acaba. Tal fato sempre nos iludiu, e disso nasceu nossa crença no “amor verdadeiro”, na “fé verdadeira”, no “conhecimento verdadeiro” etc. Acreditamos como tolos que, se encontradas, tais coisas nos dariam a satisfação eterna, ignorando que o fato de que satisfações eternas são biologicamente impossíveis. Assim, apesar de gostarmos de nos confortar com sonhos impossíveis envolvendo satisfações eternas, é inegável o fato, é incontornável a realidade de que nossos sonhos, uma vez satisfeitos, não nos satisfazem. A constatação filosófica segundo a qual não devemos esperar que nossos sonhos, uma vez realizados, nos tornem seres eternamente satisfeitos é análoga à constatação farmacológica segundo a qual não devemos esperar que uma dose de narcótico, uma vez injetada, nos torne seres eternamente dopados. Só em contos de fadas se vive feliz para sempre. A satisfação, natural ou não, só dura alguns instantes, pois drogas, estejam em ampolas ou em cérebros, possuem todas uma meia-vida limitada. A dose de hoje não nos livrará da abstinência de amanhã, e essa é a razão pela qual precisamos continuar sonhando, mesmo que nossos sonhos já tenham se realizado.Diante dessa realidade, não podemos ver como algo ruim o fato de que viver é um vício, pois é em função disso, e apenas disso, que vivemos. O fato de tudo ser química, em vez de ser encarado negativamente, deveria, pelo contrário, nos dar alguma esperança, pois talvez futuramente haja uma tecnologia suficientemente avançada para que consigamos controlar tal química com resultados muito mais satisfatórios que os atuais. Assim, se formos capazes de colocar de lado nossos preconceitos, veremos como é esclarecedor perceber que nosso comportamento é, e sempre foi, norteado pelas guloseimas químicas que nosso cérebro nos oferece em ocasiões especiais. Considerando que nossa consciência nasceu e vive trancada no sótão de uma fábrica de narcóticos, o resultado não poderia ter sido outro.