16 FELICIDADE III O VAZIO DA MAQUINA

FELICIDADE

Passamos pela vida atabalhoados, ansiosos, sem saber o que buscamos — ou, se o sabemos, dificilmente conseguimos responder por que sem gaguejar. Em nenhum instante paramos nosso fluxo existencial num flash presente e dizemos “isto é o que busco na vida — realmente tudo o que busco”. No melhor dos casos, nossos momentos de felicidade são apenas uma boa dose de hormônios bem calibrados que nos leva a pensar que beleza, não? Esses momentos felizes ficam gravados em nós, mas não por uma bondade do destino. Tal fenômeno pode ser explicado pelo fato de que um dos principais critérios para que nossas memórias sejam fixadas consiste de overdoses naturais, ou seja, enxurradas de substâncias liberadas pelo próprio organismo em circunstâncias emocionalmente relevantes ao sujeito, garantindo que nossa existência as tenha eternamente como referenciais, que sejamos sempre a versão em escala real dos ratos que criamos em laboratório. Considerando que a manutenção do bem-estar é uma das metas mais importantes dos organismos, faz sentido que nos lembremos das estratégias, dos comportamentos que se mostraram positivos nesse particular. Memorizamos os momentos felizes para que possamos repeti-los, não em nome da felicidade; memorizamos aquilo que nos causou dor para que possamos evitá-la futuramente, não em nome do sofrimento. Nesse esquema, vemos que o objetivo não é o prazer nem a dor, mas a simples manutenção do indivíduo. Essa é a razão de não nos lembramos dos longos períodos de tédio, que constituem a maior fatia de nossas vidas. Não ficam gravados porque não nos ensinaram nada de importante. O interessante aqui é perceber o ponto em que ambas as coisas — a felicidade e nossas vidas — se interceptam: memória. Ou seja, a alegria só cruza nosso caminho quando não há mais nenhuma possibilidade de toparmos com ela. O próprio fato de acreditarmos que overdoses endógenas tenham algo a ver com o sentido da vida já deixa claro como fomos levados pelo nariz nessa questão. Assim, na falta de filme fotográfico, se quisermos nos lembrar de algum momento pelo resto de nossas vidas, e depois chamar isso de felicidade, só precisamos fazer algo que o rato dentro de nós nunca ousaria. Ganharemos uma memória para toda a vida, uma dose de narcóticos para alguns instantes. Isso é tudo o que podemos esperar do presente. Do futuro esperamos coisas impossíveis, como a existência conspirando para erigir nossos ideais ou o cessar da vontade na realização de algum sonho imaginado como importante — que será um marco divisor entre o agora angustiado e o longo e próspero futuro cheio de coisas fantásticas que nos tornarão felizes. Coisas que não sabemos quais são porque isso nunca aconteceu, apesar de insistirmos na crença de que um dia, inevitavelmente, acontecerá e será bom como um dia sabemos que saberemos. O problema é que não reconhecemos a chegada desse futuro até que já tenha se tornado uma velha memória. Isso porque nossos sonhos podem ser imaginados como imensos mosaicos: de longe, são muito belos, compondo figuras fabulosas que cativam nossa imaginação. Entretanto, à medida que nos aproximamos, os detalhes se tornam cada vez mais grosseiros, até que, ao alcançá-los, já não reconhecemos neles a imagem que nos seduzia. Só passaremos a ver a figura novamente quando se tornar um passado distante, enchendo-nos de nostalgia e cãibra. Buscar felicidade diretamente nesses locais é uma impossibilidade óbvia que gera frustração. Por um lado, toda a felicidade que exigimos do mundo não cabe no presente. Por outro, quando o futuro chega, nunca encontramos nele a felicidade que esperávamos. Precisamos, entretanto, viver com alguma sensação de dignidade em nossos cérebros cheios de voltinhas especiais. Qual é o “pulo do gato” para burlar esse desencontro? Falsificamos a memória. Ninguém tem mais felicidade que no passado: é ondeimaginamos que toda a alegria que fomos colhendo como migalhas durante a vida fica armazenada, pronta para ser evocada e justificar mais alguma idiotice insípida que, futuramente, será motivo de lembranças saudosas. Na dúvida, sempre ficamos com uma interpretação dos fatos, nunca com a memória crua desses fatos: nós os reinventamos, colorimos, recheamos de coisas gordurosas. Depois vomitamos essa memória adulterada à nossa consciência presente, e isso prova que somos felizes. Essa é a única razão pela qual pensamos na infância como uma época feliz. Sendo a coisa mais distante e vaga da qual conseguimos nos lembrar, a falta de dados nos faz supor que não sentíamos todo o peso da existência ao comer um doce estragado. Claro que, se pudéssemos visitar nossa própria infância numa máquina do tempo e nos perguntarmos diretamente a respeito de tais coisas, o testemunho contrário ainda não nos convenceria, em geral sob o pretexto de que nossa imaturidade não nos permitia reconhecer a felicidade quando a víamos, deixando-a passar despercebida — mesmo que, nesse sentido, continuemos tão imaturos e cegos quanto sempre fomos. *** A felicidade de nossas vidas é sustentada por uma ótica constantemente falsa. Sonhamos com o futuro e dizemos: “ah!, como serei feliz...” Olhamos para trás e suspiramos: “ah!, como fui feliz...” Agora, lamentamos: “ah!, como sou desgraçado...” No presente, somos seres infelizes rodeados de grandes felicidades, todas elas distantes, mas perto das quais o sofrimento atual parece desprezível. É como se vivêssemos numa ilha de infelicidade rodeada por um mar de alegria — mas o fato é que nunca mergulharemos nesse mar, pois ele é apenas uma ilusão que inventamos para justificar nossa miséria. Mesmo que nunca a sintamos, vivemos absolutamente convictos de que a felicidade existe — e, esteja onde estiver, está à nossa espera. Não importa que, nesse particular, nossas vidas resumam-se a uma série de desenganos: nunca admitimos que tudo é areia. Podemos estar certos de que, se a felicidade fosse uma pessoa, ela estaria presa — mas isso não nos prova nada. A felicidade nos sorri como uma miragem, e nós acreditamos que dessa vez pode ser real: acreditemos naquela que sempre nos tapeou! O presente sempre nos parece infeliz. O futuro, por sua vez, nos parece belo pelos mesmos motivos que o passado: não conseguimos prever detalhes do futuro nem nos lembrar dos detalhes do passado. A vida, então, passa a ser algo tão simples como a ideia que temos dela, sendo o presente apenas um estado provisório de ansiedade. A diferença é que já estivemos no passado e, como o tempo não anda para trás, não há chance de sermos desmentidos, sendo, portanto, o local mais seguro para depositarmos nossas mentiras pessoais mais preciosas. Caso tenhamos dúvidas quanto a isso, façamos um teste prático. Num momento qualquer em que estivermos profundamente infelizes, tiremos uma foto de nós mesmos sorrindo e a guardemos por algum tempo. Podemos até anotar atrás dela exatamente o que estávamos sentindo naquele instante. Quando já houvermos nos esquecido dos detalhes específicos das circunstâncias em que nos encontrávamos ao tirar a foto, sem uma ideia clara daquilo que nos entristecia, observemos a foto sorridente. Vendo-a, lembramos que pensávamos estar infelizes naquele momento. Entretanto, temos a clara impressão de que, no fundo, um fundo, qualquer fundo, estávamos felizes, não é? Pois é. Na juventude, toda a infelicidade das gerações passadas não nos prova nada, senão que foram incapazes de aproveitar a vida — e nós, obviamente, seremos a primeira exceção na história da humanidade. Na velhice, limitamo-nos a devanear quantas vezes fomos felizes mesmo nos sentindo miseráveis. Entretanto, a vivência, muitas vezes erroneamente interpretada como sabedoria de vida, não nos dá o direito de empurrar nossas mentiras aos que ainda nada sabem da vida, como se o mero fato de sermos velhos tornasse o autoengano respeitável. Muitos juram que, se retornassem à sua juventude, dessa vez seriam felizes, mas isso é só mais uma das inúmeras mentiras que contamos a nós mesmos quando o futuro já está curto demais para acomodar nossas ilusões de realização. É difícil imaginarquantas vezes um indivíduo teria de viver para confessar algo tão óbvio — e talvez isso apenas resultasse em teorias ainda mais descabidas sobre a felicidade do centésimo renascer. *** Há diversos meios de justificar para nós mesmos que, num balanço geral, somos felizes, mesmo não sentindo felicidade alguma. Um deles é dizer que há inúmeras pessoas que sofrem mais que nós e que, portanto, pelo mero fato de não sermos ainda mais miseráveis, deveríamos nos dar por satisfeitos. Se tivermos uma unha encravada, há aqueles que não têm pé; se não tivermos pés, há os que não têm pernas; se não tivermos pernas, há os tetraplégicos; se formos, ainda há os tetraplégicos com câncer terminal; se formos tetraplégicos com câncer terminal, há ainda os tetraplégicos com câncer terminal e um maldito cisco no olho. Logo, uma unha encravada é insignificante. Claro, não deixa de ser. Contudo, é algo apenas relativamente insignificante e, além disso, o parâmetro que permite a comparação é uma dor que não nos diz respeito. Como o sofrimento alheio não diminui o nosso, dá no mesmo. Não nos sentimos reconfortados pelo fato de sofrermos apenas uma parcela de todos os males que poderíamos sofrer, pois também não somos tão felizes quanto poderíamos ser. Esse tipo de raciocínio, em geral, é apenas um modo de fazer com que paremos de importunar os demais com lamúrias. Ninguém o leva realmente a sério. Outra estratégia consiste em alegar que o momento em que estamos nos sentindo infelizes é apenas uma “fase passageira” da vida. Crianças pequenas só não expressam sua infelicidade porque não sabem falar coerentemente, embora seu choro constante seja um bom indício disso. Entretanto, pouco tempo depois, começam os queixumes explícitos. O maior anseio das crianças, então, é atingir determinada idade, confiantes de que nela poderão desfrutar de certos benefícios que as tornarão felizes. Assim, digamos, um menino quer tornar-se adolescente para poder divertir-se na vida noturna. Vendo que isso não satisfez, imagina que, ao tornar-se maior de idade, será feliz porque poderá consumir bebidas alcoólicas e dirigir. Tal liberdade, pensa, o salvará de sua miséria; erro. Frustrado, imagina que será pleno depois de conquistar sua independência financeira. Porém, vendo que não houve mudança alguma, supõe que, com o tempo, receberá reconhecimento profissional, ocupará altos cargos. A cadeira presidencial, entretanto, não o consola. A seguir, imagina que deve casar-se e ter filhos; outra desilusão. Envelhece, torna-se doente, e chega à fase derradeira. Apenas nesse momento se arrepende de não haver aproveitado as pequenas chances que teve, pois considerou todas as épocas de sua vida como uma “fase passageira”, pensando que, depois de alguma dessas fases, surgiriam as “grandes chances” e as “grandes alegrias”. Passou pela existência em branco, aguardando que a “verdadeira vida” começasse com tambores e trombetas. Deixou as oportunidades escorrerem de suas mãos porque não soube reconhecer que o sofrimento e a insatisfação são intrínsecos à vida. A ansiedade causada pelo sonho de uma felicidade positiva nos leva a apressar a vida, a ver o presente como algo desprezível em relação ao que o futuro nos reserva. Imagina-se que a infelicidade passará quando atingirmos determinada idade, em que os problemas atuais não nos afligirão — e isso de fato acontece. Entretanto, novos problemas surgirão, fazendo da infelicidade a única constante da vida. A ideia de que a vida é feita de “fases” não pode, portanto, ser usada como pretexto para ignorarmos o presente. Aquele que não sabe reconhecer os benefícios e as moléstias de sua própria idade sofrerá ainda mais por não viver de acordo com sua condição atual. Com os olhos fixos no porvir, tropeça no agora. Desse modo, seu presente será ainda mais desgraçado, e no futuro uma desilusão o aguarda. Nesse processo contínuo de autoengano, consideramo-nos felizes, não porque nos sintamos felizes, mas porque damos como certa a promessa de uma felicidade futura que, entretanto, nunca chegou. Nunca chegará. Tudo não passou de um sonho.Temos também o entretenimento como um meio muito duvidoso de tentarmos alcançar a fantasmagórica felicidade. Consiste basicamente na ideia de que, ao nos distrairmos em eventos públicos, estamos aproveitando a vida, e isso significa ser feliz. Por exemplo, imaginemos que o entretenimento seja comparecer à apresentação de uma de nossas bandas prediletas. Claro que, em nossas residências, sentamo-nos em nossas poltronas, ligamos o aparelho de som e, relaxados, apreciamos a música. Todos comparecem ao evento convictos de que a situação será ainda melhor, pois terão os artistas à sua frente, numa magnífica performance ao vivo. Vejamos, entretanto, como as coisas realmente acontecem. Compramos ingressos antecipados e viajamos até a cidade em que será realizado o show. Cansados da viagem, com dores nas costas, precisamos enfrentar filas quilométricas. Horas depois, agora também com dores nos pés, entramos no recinto. Caso não tenhamos comprado ingressos especiais, com direito a cadeiras reservadas, esperamos em pé, ou sentados no chão, até que o evento se inicie. Enquanto isso, ouvimos uma série de outras bandas iniciantes que não nos interessam, as quais provavelmente tiveram a oportunidade de realizar a abertura do show porque são camaradas de algum dos integrantes da banda principal que, por piedade, decidiu dar-lhes uma chance de se tornarem conhecidas. Agora, também com dor de cabeça, mal conseguimos parar em pé, mas temos de afastar o cansaço porque finalmente começará o evento. A multidão se aglomera desesperadamente, espichando as cabeças na esperança de ver seus ídolos palhetarem os instrumentos a dezenas de metros. No processo, somos espremidos por todos os lados por uma massa de indivíduos suados e bêbados, que sobem uns sobre os outros e gritam ininterruptamente, acompanhando as músicas com a voz mais desafinada possível. Quanto mais nos aproximamos do palco, mais a situação se torna extrema. Infelizmente, quando estamos quase conseguindo ver alguma coisa, nossas bexigas nos fazem sentir o chamado da natureza. Temos de cortar a multidão às pressas. Aliviados, refazemos todo o percurso até o ponto em que estávamos. Com dores nas costas, nos pés, nos ouvidos, na cabeça, não escaparemos das cotoveladas, e ainda teremos de suportar ter o pé pisado dezenas de vezes. A não ser que tenhamos comprimidos de morfina no bolso, não conseguiremos ignorar todos esses incômodos e aproveitar a música como fizemos em nossas residências. Os fatores negativos suplantam qualquer possibilidade de apreciação estética. Como nós, cada indivíduo está cheio de expectativas de realização, ansioso para vivenciar a felicidade que imaginou para si naquele evento, mas não consegue. Suas expressões exageradas de entusiasmo não revelam prazer, mas desespero. Olham-se uns aos outros entediados, gesticulam na tentativa de atrair atenção, cantam em altíssima voz as músicas mais desconhecidas, certos de que estarão demonstrando aos demais seu profundo conhecimento dos aspectos mais irrelevantes da carreira musical de seus astros. Pulam ao comando do vocalista, levantam os braços, batem palmas. Todo esforço é válido, pois se obrigam a aproveitar aquele momento, custe o que custar. Serão felizes, e não importa quanto precisem sofrer. Findo o evento, despedaçam-se na tentativa de agarrar uma miserável palheta lançada pelo músico, como quem visse nela o santo graal da felicidade. Por fim, voltam para suas residências e, quase mortos, imundos, cheios de hematomas e cãibras, enchem-se de analgésicos, tomam banho e dormem como quem entrou em coma. No dia seguinte, quando perguntados sobre a experiência, suas vozes roucas dizem: o show foi fantástico, ouvi minha música preferida! Em viagens turísticas temos basicamente a mesma situação, não sendo necessário descrever outros modos pelos quais nos tornamos ainda mais miseráveis na esperança de ser felizes. Basta dizer que, se houvesse um lugar tão maravilhoso que apenas estar nele nos tornasse felizes, a humanidade inteira estaria concentrada nesse único ponto, e nunca pensaria em sair dele. *** Há, por outro lado, os que, em vez de buscar a felicidade, culpam o mundo por sua infelicidade.Rebeldes, revolucionários ou simplesmente idiotas, elaboram teorias extremamente sofisticadas a respeito de organizações predatórias que se dedicam a nos tornar miseráveis e cegos. Devido a essa “conspiração global”, ficam escondidas de nós as “realidades verdadeiras” nas quais poderíamos encontrar a felicidade. No seu entender, todos são manipulados como marionetes, e o único modo de superar tal condição consiste em nos engajarmos em lutas sociais utópicas nas quais combateremos o que se designa vagamente pelo termo “poder”. Isso para que as próximas gerações sejam felizes — nós já estamos condenados. Assim, temos, por exemplo, os socialistas, que culpam o capitalismo por tudo o que há de errado na sociedade, como se as empresas de refrigerantes multinacionais fossem vilãs que corrompem nossas vidas através do engarrafamento de xaropes gaseificados. Confortam-se pensando que foram vítimas de políticos inescrupulosos que os inculcaram ardilosamente necessidades falsas, contra as quais agora se levantam. Adoram pintar-se como pobres-diabos crucificados pelo sistema. Lamentam que tudo, hoje em dia, seja movido pelo dinheiro, que nossas vidas sejam descartáveis como latas de sardinha. Falam da infame “obsolescência programada”, sem desconfiar que ela funciona porque a aceitamos como uma medida contra o tédio. Copos plásticos não são, como dizem, o resultado de mentes diabólicas. Nossas necessidades é que são descartáveis. Foi nosso modo leviano de viver e de consumir que criou e alimenta essa indústria da obsolescência. Não foram os produtos que nos tornaram assim, nós é que criamos indústrias assim com nossas necessidades vulgares. Saibamos ao menos admiti-lo: adoramos comprar lixo. A ânsia pelo lucro, por sua vez, não é a causa da ganância humana, mas exatamente o contrário. Se o lucro fosse abolido, encontraríamos outro modo de explorar uns aos outros. Considerando que antigamente isso era feito com clavas, estamos muito bem. Caso o capitalismo fosse derrubado, não nos tornaríamos “irmãos”, como dão a entender pelos apelidos carinhosos com que se tratam entre si. Num mundo onde tudo é movido pela competição, sempre haverá os que perdem, e isso não é injustiça, mas a natureza da vida, mesmo a civilizada. Se o capitalismo funciona, se resiste obstinadamente a todas as investidas do igualitarismo, é porque incorpora pelo menos algumas das regras do jogo que nos move enquanto seres vivos. Mesmo com muito incentivo, o socialismo sempre falhou. O capitalismo, por sua vez, sempre funcionou por si só, quase naturalmente. Não que a natureza humana corrobore o capitalismo, pois até onde se sabe, não corrobora nenhum lado, mas há uma grande diferença entre um sistema que funciona mal e outro que simplesmente não funciona. Além disso, essa paz que socialistas pregam não passa de um sonho infantil. Nunca nos tornaremos “irmãos” ou “companheiros”, a não ser que tenhamos em mente a inclusão de diazepam nas cestas básicas. Fala-se muito de justiça, mas, na prática, a justiça é uma teoria cujo melhor emprego que conseguimos encontrar consiste em nos engravatarmos para decidir solenemente se vamos ou não enjaular os macacos que nos desobedecem. Os discursos que proferem podem ser inspiradores, mas são apenas isto: discursos. Discursos cuja prática implica uma contradição gritante com tudo aquilo que nos constitui enquanto seres humanos — são uma piada aos nossos instintos mais básicos e um insulto à inteligência que os guia. Outros apontam o desequilíbrio ambiental, a poluição, o desmatamento e a extinção das espécies como a fonte central de todos os males que acometem a humanidade. Propõem uma vida em harmonia com a natureza como solução para problemas que nada têm a ver com isso. Mesmo depois de o cristianismo ter demonstrado, de todos os modos imagináveis, que a compaixão gratuita não funciona, querem ainda nos fazer acreditar que a piedade voltada aos animais ou ao planeta nos trará algum benefício. A questão não é, e nunca foi, a importância do verde, da natureza, das plantinhas coloridas e das baleias cantarolantes que nossos netos nunca verão. A questão não é que o planeta está ficando quente ou frio e as calotas polares vão derreter ou aumentar. Nada disso é novidade. O que chama a atenção é a devoção com que os seguidores desse ambientalismo reinventado defendem suas ideologias, sempre comaquele tom de politicagem misturada a ameaças de um futuro apocalíptico. A irracionalidade verde, que antes se restringia a poucos “escolhidos”, agora se alastrou até o couch potato voluntário que precisa de um dicionário para explicar o que é vida, mas que se dá o direito à pregação por ter plantado um pé de limão no quintal. Não é difícil perceber a similaridade desse movimento com uma espécie de panteísmo militante instalado em gente revoltada contra o tédio de suas próprias vidas, e que querem alguém para culpar por seu próprio infortúnio. Como qualquer grupo religioso, são ambiciosos. Salvar espécies em perigo de extinção para poderem sorrir à câmera tornou-se coisa pequena demais. Com seguidores fanáticos pelo mundo todo, por que contentar-se com tais mixarias? Podem constranger todos a respeitar qualquer porcaria que porte uma molécula de DNA e chamar isso de “reconhecimento da tradição biológica”, ou algo que o valha, pois todos os filhos da Natureza têm o mesmo direito, apesar de direito algum ter existido por 3,5 bilhões de anos. A moda retrô desses orgulhosos descendentes de ameba é estender a baboseira humanitária da dignidade — que nunca funcionou nem em humanos — até os sentimentos íntimos do capim, tão verdinho, que alimenta as vaquinhas que não merecem sofrer para virar hambúrguer na boca dos terríveis, horríveis seres humanos que chegam ao absurdo de manifestar sua natureza predatória em vez de virar adeptos resignados do verdismo, comendo carne de soja, mas não sem antes pedir perdão também às plantinhas, prometendo avanços na pesquisa genética para um dia também possuírem cloroplastos que geram energia limpa e, assim, acabar com a matança indiscriminada de vegetais plantando seres humanos, que não valem nada. Se dependêssemos desse tipo de mentalidade conservacionista, que levanta a bandeira da natureza e finge que ela evoluiu na Disneylândia, os continentes ainda estariam amarrados para conservar a Pangeia — cuja desintegração, de alguma forma, também deveria ser imputada ao homem —, e conviveríamos com os dinossauros que, depois de protegidos da extinção, foram moralizados ao ponto de se tornarem répteis afeminados, envergonhados de seus dentes afiados, lamentando por vestirem couro, comendo tofu e tratando-se com pesados antidepressivos para suportar a inaturalidade doentia desse estilo de vida justificado por ideais tão ocos que só encontram paralelo no Evangelho. Esse assistencialismo humanista que age como o representante moral do planeta — do qual a vida nunca precisou — tirou das espécies o direito de desaparecer com alguma dignidade, vítimas de sua própria incompetência adaptativa, que sempre foi o princípio fundamental da manutenção da vida. Permitir que um bando de fanáticos alucinados pelo ideal de um altruísmo impraticável coloque espécies doentes e fadadas ao fracasso em primeiro plano porque se sentem culpados pela interferência humana no planeta é a receita para o desequilíbrio mais ridículo que jamais existiu, com a Terra parecendo uma enfermaria onde ficam os passarinhos que caíram do ninho, mas que foram resgatados pela inconsciência ambiental de nossa espécie. Somos muitos criativos, às vezes quase épicos, quando a questão é esquivar-se da responsabilidade por nossa insatisfação pessoal. Nesse caso, a estratégia foi até original: percebendo que a felicidade humana é impossível, transferiram seus sonhos inúteis aos animais que, coitados, agora têm de carregar o fardo de ser felizes por nós. Há também os que culpam os meios de comunicação modernos pela extirpação de nossa “verdadeira natureza” — seja lá o que isso signifique —, pois nos reduzem a meros fantoches comerciais incapazes de pensar por si próprios. Ao assistir filmes, por exemplo, nossas personalidades deformam-se a tal ponto que nosso ideal passa a ser uma vida dentro de aparelhos televisores. Mais ainda, a influência televisiva invade nossa mente e subverte as noções de realidade e ficção, de modo que passamos a considerar o super-homem real e o padeiro, imaginário. Isso tem consequências muito reais. Muitas pessoas saltaram de prédios pensando que Clark Kent estaria lá para salvá-las. Quando ligamos o rádio, abrimos mão de nossas individualidades e abraçamos um estilo de vida massificado, imposto pelaseleção musical do locutor e pelos comerciais de cremes dentais que nos sugestionam sobre ter de escovar os dentes. Ora, qualquer indivíduo subversivo que se preze sabe que o mau hálito é um mito inventado pelas elites dominantes. Também, ao comprarmos produtos pela internet, perdemos contato com a realidade social, pois deixamos de interagir fisicamente com os lojistas. Nossas almas tornam-se progressivamente vazias na medida em que deixamos de enfrentar filas e ouvir besteirol de vendedores sorridentes. Claro que, aos nossos olhos, nada disso parece uma perda. Porém, como estamos alienados pelo frenesi tecnológico, não conseguimos perceber o quanto estamos perdendo. Lentamente, sem nos darmos conta, perdemos o contato com nós mesmos, deixamos de “nos constituir criativamente enquanto indivíduos originais” — outra ideia incompreensível —, e aceitamos ser construídos segundo modelos impostos pelo mundo ficcional forjado pela mídia de entretenimento. Quem diria que assistir ao desenho animado Tom & Jerry traria consequências tão devastadoras à nossa autenticidade existencial! O aviso está dado: quem tiver ouvidos, que ouça. Não fica claro, entretanto, que espécie de felicidade alcançaríamos após abandonar nossos meios de comunicação modernos. Talvez só compreendamos a relação da felicidade com isso tudo quando voltarmos a nos comunicar usando sinais de fumaça. Gastar o dinheiro que ganhamos com trabalho honesto, por sua vez, é “consumismo”, através do qual perdemos de vista as coisas que “realmente importam”, embora não saibamos dizer que coisas são essas nem por que elas nos tornariam felizes. Devemos aplicar todas as nossas economias apenas no absolutamente necessário. O restante deve ficar guardado embaixo de nossos colchões ou ser doado a instituições de caridade. Estamos errados ao gastá-lo em coisas supérfluas, com o único propósito de nos entreter nos momentos de lazer. A necessidade de nos divertirmos comprando aquilo que nos agrada é alienação, resultado de nossa imersão numa cultura consumista. Por que comprar roupas se podemos nos vestir com sacos de batata? Ora, a ânsia pelo luxo e pela ostentação foi implantada em nós artificialmente, pelo contato com outdoors e folhetos promocionais. Quem compraria sapatos se descobrisse que pode substituí-los pelos retalhos de couro descartados pelos curtumes? Ninguém. Mas isso o “sistema” não quer que saibamos. Nossa impulsividade consumista, como se vê, foi construída ideologicamente pela indústria da propaganda, que instalou necessidades fictícias em nossas mentes, sendo esse o único motivo pelo qual compramos espremedores de laranja. Que o destino nos guarde de — ai de nós! — comprar com nosso próprio dinheiro coisas que facilitem nossas vidas! Deixando a ironia de lado, sabemos que, livres dos perigos naturais, a essência do ser humano resume- se a sonhar besteiras e divertir-se com inutilidades — tanto que os índios brasileiros ficaram imediatamente fascinados pelas bugigangas trazidas pelos portugueses, e isso sem qualquer “propaganda insidiosa” para manipular suas mentes. A regra principal que norteia as indústrias é atender às necessidades de seus consumidores. Se nossas necessidades estendem-se à imbecilidade, não seria mais digno simplesmente admiti-lo? Continuamos infelizes após comprar coisas das quais não precisamos, e deixar de comprá-las não faria diferença alguma, exceto que precisaríamos manufaturar nossos próprios adereços supérfluos, pelos quais certamente também seríamos criticados. Tais exemplos bastam para ilustrar nossos pretextos. Claro que, quando nos deixamos iludir por engodos óbvios, por promessas impossíveis, sabemos muito bem disso. Queremos apenas ter alguém para culpar por nossa infelicidade. Colocamos nossos sonhos nas mãos dos demais e os amaldiçoamos por não poderem realizá-los. Nossa busca pela felicidade é um poço sem fundo cavado por nós mesmos. Só largaremos as pás quando nossos braços sucumbirem à exaustão. Até que isso ocorra, continuaremos insistindo que ela pode estar logo adiante. A única coisa certa é que não está conosco. ***Já ridicularizamos nossos motivos suficientemente bem. Voltemo-nos agora à felicidade em si mesma. Qual é sua essência? Propriamente analisada, a felicidade tem o aspecto de um conceito teológico, como a onipotência — algo possível apenas a anjos. Podemos, sem muita dificuldade, perceber que se trata de uma ficção destilada do prazer, a versão idealizada de uma satisfação qualquer, multiplicada por mil quantas vezes forem necessárias para que a dor, em contraste, pareça insignificante. Basta coçar uma picada de inseto e multiplicar o alívio decorrente milhões de vezes: teremos diante de nós uma concepção bastante exata da felicidade que se busca. Nessa ótica, lembra um remédio homeopático: basta uma gota dela dissolvida no oceano de nossas vidas para que passemos a acreditar, mas não a sentir, que nossas existências são um mar de alegria. Assim, não importa que todos se digam felizes em uníssono: não são, nenhum deles, pois ser feliz é impossível. Felicidade é uma palavra oca que não tem realidade por detrás. Quem se diz feliz afirma algo tão absurdo quanto alegar que pode voar abanando os braços. Diante dessa impossibilidade, não faz sentido redefinir o significado da palavra “felicidade” conforme nos apraz, como um sinônimo supérfluo para aquilo que nos agrada pessoalmente. Se pensamos que felicidade é prazer, se pensamos que é paz, por que não a chamamos prazer ou paz? Parece que gostamos mais dessa palavra que de nossas vidas. Felicidade como prazer, por exemplo, é um beco sem saída. Um copo totalmente cheio é satisfação — felicidade seria enchê-lo mais ainda sem que transbordasse. Felicidade como paz, por outro lado, é o mesmo que matéria inanimada, o mesmo que estar morto. Não parece haver saída. Se investigarmos a questão do ponto de vista prático, veremos que o único argumento materialmente plausível em favor da felicidade é o sorriso. Então, se quisermos ser felizes, só precisamos injetar morfina em nossas veias, cortar fora nossos lábios e sair pelo mundo espalhando alegria. Não nos sentiremos felizes, mas talvez convençamos algum lunático disso, levando-o a sofrer para alcançar a felicidade que imaginou ver em nosso sorriso ininterrupto. Quando convencermos um grande número de indivíduos de que alcançamos a felicidade, estaremos a um só passo da alegria: bastará batermos a cabeça numa pedra. Nessa ótica, a felicidade passa a ser uma questão de utilidade pública, não pessoal. Um sinal que exibimos exteriormente para demonstrar que estamos sadios, dóceis, aptos a viver em sociedade. Para tanto, o sorriso forçado de um atendente basta: isso é felicidade. Ter disposição para fingir, para atuar, para fazer tudo o que for necessário para levar a vida adiante, dançando conforme a música. Sabemos que, por detrás de nossos sorrisos, não há felicidade alguma. Se não encontramos felicidade em nosso próprio sorriso, por que deveríamos acreditar que a encontramos no dos demais? Sua felicidade é uma fachada sorridente, assim como a nossa. Ser feliz é apenas um profissionalismo social, uma habilidade de fazer-se agradável, uma arcada dentária em constante posição de sentido. Vale tanto quanto saber digitar, calcular impostos ou vestir-se bem. Fora do ambiente de trabalho, essa farsa nos rende amigos, isto é, parceiros informais que dão segurança aos nossos investimentos. Em nossa sociedade, não acreditar na felicidade é um tabu, assim como não acreditar em divindades. Não significa, entretanto, que tais coisas existam. Deus está para o mistério do universo como a felicidade está para o sorriso. Acredita-se em ambas as coisas pela fé, não pela experiência de vida. Só conhecemos a felicidade de vista, só o que se diz a seu respeito. Ninguém, por exemplo, acredita que um atendente noturno de postos de gasolina sinta-se maravilhado ao fazer-se de capacho a todos os que queiram encher o tanque em plena madrugada. Mesmo que tal indivíduo não se sinta feliz, ele sorri e diz: volte sempre! Parece feliz: é o que importa. Não fica a noite inteira sentado à espera de clientes porque isso é um prazer imenso, mas porque quer dinheiro, e isso se consegue sorrindo e fazendo a vontade dos fregueses. Ele se mostra feliz por dinheiro, como uma prostituta, como todos. Entre amigos, a diferença é que não se cobra à vista. ***Nunca sentimos, na vida real, a felicidade que acreditamos existir — nossa crença nela é justificada pela fachada sorridente dos demais, assim como eles acreditam na nossa. Por isso é comum tantos viverem em função da felicidade alheia. Todos sempre sorrindo, todos sempre infelizes. Enganam-se e vivem uns pelos outros em nome de uma felicidade que ninguém sente. Como pensamos que a felicidade é a única coisa capaz de justificar a vida, tornamo-nos obcecados em ser úteis. Buscamos acreditar que os demais são felizes para que isso justifique nossas vidas miseráveis — ao menos como um meio para a imortal felicidade que de nós sempre se esconde. Por isso insistimos que a felicidade existe. Nunca confessaríamos o caráter universal da infelicidade, pois isso nos implodiria. A felicidade, então, nunca está em nós, nem no outro, só no modo como pensamos o outro. Trata-se da projeção de nossas expectativas nos demais, e esse é o motivo pelo qual a felicidade sempre se encontra “do lado de lá” — pensamos que só os demais podem ser felizes como nós gostaríamos de ser. Sabendo disso, voltamo-nos aos demais, fazemos-lhes um favor qualquer, e eles nos sorriem uma prova de que a felicidade existe. Dela fazemos parte porque de nós veio o favor. Nossas mentiras, umas vez refletidas nos demais, tornam-se verdades. Pensemos em alguma pessoa feliz: ela não existe. Seja ela quem for, está apenas em nossa imaginação. Se quisermos uma prova disso, bastará nos dirigirmos à pessoa em questão e a inquirirmos a respeito da ideia que fazemos dela: abrirá imediatamente um sorriso de compaixão, comovida por nossa inocência. Mesmo as pessoas que admiramos, cujas vidas nos parecem absolutamente fabulosas e dignas de inveja, na verdade são como nós, e o fato de ignorarmos essa verdade é o único motivo pelo qual acreditamos que a felicidade é possível. Para percebê-lo, basta pensarmos em como certos indivíduos admiram em nós coisas que muitas vezes sequer existem e, mesmo quando existem, não nos trazem qualquer felicidade — mas eles invejam isso em nós, realmente invejam, e imaginam que, quando a conseguirem, serão felizes como nós não somos. No fim das contas, se admiramos uma pessoa, isso só prova que a conhecemos mal. Podemos estar certos de que abandonaríamos imediatamente nossa admiração se pudéssemos, por um minuto somente, viver em sua pele. Recapitulando: sentimo-nos miseráveis, nossas vidas não valem nada. Qual é a solução? Viver pelas dos demais — pois eles, pelo motivo que for, devem valer alguma coisa. Mas os demais pensam da mesma forma e, assim como nós, não valem nada para si mesmos. Sentem-se miseráveis, mas acreditam que nós sejamos felizes. O círculo se fecha. Se eles vivem para nós, e nós para eles, onde está a felicidade, o motivo pelo qual se vive? Está nessa miopia. A solidão é insuportável à maioria dos indivíduos exatamente porque nos revela essa verdade — revela que as mesmas ações que direcionamos aos demais, pensando que isso os torna felizes, quando direcionadas a nós mesmos, não nos trazem felicidade alguma. O círculo se rompe porque não conseguimos nos enganar sorrindo para nós mesmos — e a solidão cai sobre nossas cabeças como uma prova irrefutável de que ninguém é feliz.