05 IRREFLEXÃO III O VAZIO DA MAQUINA

IRREFLEXÃO

O pensamento crítico e racional não é para todos, nem deveria, assim como o atletismo não é para todos. É injusto exigir que os demais tenham uma visão lógica e coerente da realidade que supere o mínimo necessário para a satisfação de suas necessidades pessoais imediatas, ainda mais quando tal comprometimento exigisse uma grande quantidade de esforço de indivíduos cujas vidas são essencialmente práticas. Tal empenho resultaria num benefício risível para a maioria e só poderia ser estabelecido artificialmente, por meio da força. Pelo mesmo motivo, ninguém é forçado a manter um condicionamento físico para além do necessário para sobreviver, por mais flácidos que seus corpos se tornem. Não soa razoável a ideia de que devamos, obrigatoriamente, durante nossas vidas inteiras, cultivar um condicionamento mínimo para, digamos, correr dez quilômetros ininterruptamente, e isso pelo simples motivo de que o atletismo é supostamente maravilhoso em si mesmo.

Atividades físicas severas não são para todos, tampouco atividades mentais severas. Pensar é uma ocupação cansativa, extenuante. O cérebro precisa ser treinado, condicionado, exercitado para que possamos praticar a reflexão. Aquele que não está acostumado a correr longas distâncias cansa-se rapidamente; da mesma forma, aquele que não está acostumado a pensar não é capaz de refletir, de engajar-se em debates intelectuais por longos períodos. Sem um preparo prévio, em poucos instantes começam as dores musculares e as dores de cabeça. O paralelo ajuda-nos a compreender que tal observação não é um preconceito contra a irreflexão assim como não o é contra o sedentarismo. Trata-se somente de escolhermos, ou ao menos aceitarmos, o que mais estiver de acordo com nossas possibilidades.

Analogamente, se o objetivo fosse garantir nossa segurança pessoal, teríamos a escolha de passar nossas vidas inteiras praticando alguma arte marcial ou simplesmente comprar um spray de pimenta. Se o objetivo fosse alcançar um estado de profunda serenidade, poderíamos passar dez anos meditando em algum retiro budista ou simplesmente ir à farmácia mais próxima e comprar, por alguns trocados, uma cartela de paz-na-alma. Desse modo, a não ser que nosso objetivo seja exatamente a reflexão, é mais coerente deixá-la aos cientistas, filósofos e simpatizantes, assim como deixamos a dor de dente aos dentistas e continuamos a nos ocupar daquilo que realmente nos importa, caso não seja nada disso. Temos pleno direito de ser ignorantes e limitados nas áreas que não nos dizem respeito, e isso não é vergonha alguma.

Ainda assim, não é correto concluir que todos os não-pensadores sejam tolos ingênuos apenas porque não procuram na reflexão filosófica e no conhecimento científico respostas para uma questão que, em regra, não admite solução. Em certas situações, refletir demoradamente sobre questões existenciais não é sequer a saída mais digna, pois não oferece, no fim de muito esforço, nada além do que qualquer sistema metafísico popular proporciona com a mesma eficiência de um drive through. Assim como temos lanchonetes para quem não quer cozinhar, temos religiões para quem não quer pensar. Nelas encontramos explicações prontas para os mais variados gostos. Basta escolher e acreditar: o assunto nunca precisará ser digerido.

Desinteresse, entretanto, não é o mesmo que incapacidade. Assim como quem almoça em restaurantes não é necessariamente um jumento do tempero, os consumidores de sistemas prontos baseados em dogmas também não se reduzem necessariamente a acéfalos, alheios aos problemas filosóficos levantados pela condição humana. É comum invocarmos a ideia de que todos os adeptos de sistemas populares acreditam cegamente nas respostas enlatadas para as questões que os afligem, mas isso é umengano, e é fácil demonstrá-lo. Por exemplo, selecionemos um grupo de indivíduos com crenças bastante heterogêneas: um acredita num deus pessoal, outro em espíritos em evolução, um terceiro no todo-uno, ainda outro no deus-natureza e assim por diante. Então, do modo mais educado possível, peçamos a estes que descrevam o quanto sua crença é importante e verdadeira e confortante, deixando que discorram pelo tempo que quiserem até se sentirem seguros de que não os vemos como tolos por professarem crenças infundadas. Depois, como uma possibilidade remota, joguemos no ar a hipótese de suas crenças serem pura e simplesmente falsas, dando-lhes um espantalho no qual bater, para que assim não sintam sobre si todo o peso do que dizem. Qual será o resultado? Não é difícil imaginar: um discurso puramente niilista, absurdamente realista, cruelmente honesto de indivíduos que talvez nunca tenham estudado filosofia ou ciência, tendo aprendido isso tudo apenas por meio da experiência de vida. Seu raciocínio será basicamente: “se Deus não existe, estamos aqui para nada”; “se Alá não existe, a vida não tem sentido”; “se não há imortalidade, somos apenas poeira de estrelas” — e estão absolutamente corretos. Diante disso, temos a impressão de que todos, no fundo, sabem que a existência é oca, sendo suas crenças apenas um modo de se protegerem dos fatos.

Supondo-se que a ideia de falta de sentido tenha surgido em todos os que para ela tenham buscado uma solução, mesmo que uma solução singela, a conclusão é que a maioria dos indivíduos tem capacidade de ao menos concebê-la. Isso indica que quase todos reconhecem esse vazio do existir e, intuitivamente, se protegem como podem, o que quer dizer, em regra, uma proteção prática, a mais prática de todas: não pensar no assunto, dá-lo como resolvido pela fé. Naturalmente, tal fato influenciou a sociedade, repercutindo na forma de soluções genéricas oficiais ou tradicionais para proporcionar alguma sensação de segurança àqueles que se sentem afligidos pela falta de sentido e não têm tempo nem recursos para investigá-la pessoalmente. Quem não tem condições de concluir por si mesmo se vê forçado a comprar sistemas prontos, e isso geralmente significa incorporar de modo mais ou menos passivo as ideias populares do ambiente que os circunda, como quem se acostuma a almoçar no restaurante mais próximo por conveniência.

Assim como, antigamente, acreditar em Dionísio e dedicar-lhe grandes bebedeiras e orgias era algo perfeitamente respeitável, já que todos faziam o mesmo, hoje é muito normal acreditar no cristianismo e rezar terços. Desde que a crença tenha representantes vivos em número suficiente, ela se justifica como uma espécie de irracionalidade grupal. Quanto maior for o número de seguidores de determinada doutrina, maior será sua imunidade à crítica e maior a sensação de segurança que proporciona aos seus adeptos. Hoje a liberdade de culto é garantida como um direito individual. Entretanto, a crença só ganha o status de realidade se houver um número suficiente de fiéis. Um indivíduo sozinho, nu em meio à rua às três da madrugada, louvando a santa jabuticaba, provavelmente será preso por ato obsceno, mesmo que alegue estar professando sua fé pessoal, cujo direito está garantido constitucionalmente. Contudo, se esse fosse um costume estabelecido firmemente dentro de nossa sociedade, em função do qual milhares de indivíduos despem-se em meio à madrugada em louvor a essa fruta como aquilo que dá sentido às suas vidas, ninguém ousaria desrespeitá-los, assim como não desrespeitamos o Carnaval. A lei, portanto, só pisa em ovos no assunto da liberdade de culto quando há um número considerável de representantes para os quais tal louvor é importante. Em nome do bem-estar social, respeita-se a irreflexão dos que professam crenças sem pé nem cabeça, mesmo que sejam incômodas aos que não as seguem.

Apesar de as respostas que tais sistemas populares oferecem não serem exatamente satisfatórias pessoalmente, quando vemos uma legião de indivíduos demonstrando externamente tanta certeza a seu respeito, nos sentimos satisfeitos em deixar a questão de lado, não porque a resposta seja satisfatória, mas porque o objetivo é exatamente tirar a cabeça dessa miséria existencial e seguir adiante com a vida, e para tal fim os demais são um pretexto excelente, seja com a crença em divindades ou em frutas sagradas. Assim, os líderes se justificam na multidão de seguidores, os seguidores se justificam nos líderes, e todos uns nos outros. Nenhum deles se sente perfeitamente satisfeito com suas crenças, masfingem o contrário, para não ser excluídos. Quando todos fazem o mesmo, a impressão resultante é que apenas nós somos tolos o suficiente para levantar dúvidas, pois não parece possível que todos estejam fingindo, mas estão. Quase invariavelmente, terminamos por seguir o exemplo dos demais que, como nós, estão encenando suas crenças. A coisa caminha coletivamente num sistema de autoajuda no qual vemos todos se protegerem mutuamente da dúvida com aquele carinho boçal de quem dá aos demais conselhos nos quais nem ele próprio acredita. Como se supõe, esses sistemas sempre encorajam fortemente a socialização, pois a ideia central é que os indivíduos sugestionem uns aos outros. Por isso nunca encontraremos um parapsicólogo solitário que lê mentes para passar o tempo. Todas essas coisas são exibidas, encenadas, e as mentes são lidas exatamente nesse processo de entender mal os fatos.

Mesmo parecendo estranho que um esquema de grandes proporções seja sustentável através da hipocrisia, ele funciona muito bem, ainda que sejamos levemente coagidos a omitir nossas dúvidas mais íntimas. Funciona porque, em grupos, os humanos se tornam altamente influenciáveis, deixam-se guiar pelo que acreditam ser a opinião da maioria, da qual querem fazer parte desesperadamente. Fazer parte de um grupo nos proporciona segurança, faz com que nos sintamos protegidos e justificados em nossas opiniões por haver um grande número de indivíduos que pensa o mesmo. Como o objetivo em vista é o bem-estar, a própria veracidade da crença torna-se um assunto marginal, e mentir quanto a isso torna-se natural. Essa hipocrisia não é muito diferente daquela que vemos diariamente nos ambientes de trabalho, em que somos obrigados a realizar toda uma performance teatral a fim de transmitir certa imagem aos clientes. Essas mentiras convencionais funcionam porque ambos sabem a verdade, mas ninguém se atreve a dizê-la. Por tal razão, ambos mentem, mas nenhum dos dois se sente enganado. Trata-se da famosa hipocrisia convencional, comumente designada pelo termo profissionalismo.

Podemos dizer que, assim como a maioria dos indivíduos compromete seu coração com sua família e amigos, aqueles que não pensam comprometem sua inteligência com suas crenças. Sabem que, no fundo, isso tudo é um mero acaso, mas é o acaso deles. Caso houvessem nascido em outra família, seus entes queridos e amigos seriam outros, suas crenças muito provavelmente seriam distintas também, mas nada disso importa aos seus donos. O fato é que todo homem, em maior ou menor grau, tem algum apreço por suas ideias, e isso pelo simples fato de que são suas. São algo ao qual se agarram em busca de segurança, não de realidade — são como seus filhos. Isso acontece em assuntos como nacionalidade, religião, cultura, tradição etc. Indivíduos orgulham-se de seu país simplesmente porque nasceram nele; seguem sua religião somente porque ela os batizou; respeitam sua tradição apenas porque ela justifica seus costumes e preconceitos.

É tudo muito inercial na mente daqueles que não pensam. Seguem passivamente, absorvendo influências do ambiente como uma esponja. Defendem seu país, sua tradição, sua fé, pelo mesmo motivo que seu time de futebol predileto. Em grupos, tudo se resume a uma espécie de briga entre torcidas. Ridicularizam os costumes de outros países como quem nunca pensou que poderia haver nascido neles — a culpa deles é não pensar como nós pelo acaso de haverem nascido lá e não aqui. Tais indivíduos nunca escolhem o que defendem, simplesmente abraçam a primeira coisa que lhes aparece à frente e nunca mais a soltam, nunca pensam nisso. Confrontá-los só faz com que se agarrem ainda mais firmemente aos seus credos. Então, mesmo que discordem entre si, não há o que debater — suas ideias estão sempre certas assim como seus filhos são todos bonitos e inteligentes. Naturalmente, não podem explicar o porquê, pois a honestidade exigiria que abandonassem a parcialidade que os permite viver com leviandade. Quando afirmam que não precisam se explicar aos demais, estão apenas tentando evitar o embaraço de tropeçar publicamente nas realidades mais óbvias. Por isso evitam discutir o assunto, por isso frequentemente se irritam ao discuti-lo. No fundo, envergonham-se de sua incoerência, mas precisam dela para viver em paz.

Na ótica da paternidade biológica, é normal que os pais, de início, tenham a ilusão de que filhos sejam sua propriedade, mas se trata de uma crença que se verá, cedo ou tarde, contrariada pela realidade, poisfilhos também se tornarão seres independentes. Porém, no campo das ideias, muitos pais escolhem nunca permitir que tal independência ocorra. Nunca lançam seus filhos, suas teorias, ao mundo, orgulhando-se de que suas crias sejam capazes de sobreviver por si próprias. Nunca as permite descobrir se na verdade são crianças feias e estúpidas. Como pais coruja, intervêm constantemente na vida de suas ideias para evitar que sejam contrariadas pela realidade. Resulta que tais teorias nunca superam sua própria infantilidade, nunca se desvencilham da subjetividade de seus autores para passar à vida adulta, ou seja, à objetividade. Dependentes dos cuidados exteriores de seus donos, quando abandonadas a si mesmas, seu destino é a morte certa.

Como vemos, são essencialmente teorias ocupacionais que distraem e protegem os indivíduos da angústia da dúvida. Substituem a reflexão pela fé numa brincadeira de faz-de-conta na qual o norte é o acaso e a verdade é o número de seguidores. Tais perspectivas infantis são forçadas a permanecer eternamente imaturas para satisfazer a necessidade de não pensar de seus donos. Assim, depois de uma longa vida, seus corpos já estão velhos, seus filhos já se tornaram independentes, mas suas crenças ainda não saíram das fraldas. São pais superprotetores para que eles próprios permaneçam perfeitas crianças.

Naturalmente, isso tudo acontece como um teatro mais ou menos inofensivo. A irreflexão é algo bastante justificável aos indivíduos que querem somente levar suas vidas inercialmente, sem prestar muita atenção ao que fazem, já que quanto mais observam, mais perplexos ficam. Nesse caso, a mentira não é prejudicial, pois seus donos reconhecem seu caráter pessoal, sua existência apenas subjetiva — não se sentem no direito de impô-la aos demais pela força. Quando precisam tomar decisões sérias, nunca levam em consideração suas crenças lúdicas; deixam-nas em segundo plano porque sabem que tais fatos são só uma realidade ficcional que os agrada e os consola pessoalmente. Fingem para si próprios em busca de paz, e aos demais para manter as aparências. Não passa de uma grande neurose, e está tudo bem.

Contudo, alguns indivíduos realmente acreditam na existência efetiva de seus pimpolhos teóricos, muitos até lhes dão primazia sobre a realidade física. São os que conhecemos como fanáticos. É comum imaginarmos o fanatismo relacionado apenas a grupos religiosos radicais, mas se trata de algo que podemos encontrar sob os mais variados disfarces, desde os clássicos religião, esporte e política, até filosofia, ciência e outras posturas mais sofisticadas e pouco conhecidas, apesar de igualmente importantes para a salvação do mundo. Como fanáticos dão prioridade aos seus mundos particulares também no trato com os demais, são seres efetivamente loucos, com os quais a convivência é insuportável e muitas vezes perigosa. É certo que nunca encontraremos pensadores fanáticos, pois o fanatismo pressupõe a irreflexão, não como mera ausência, mas como incapacidade de pensamento crítico: está muito além de uma mera birra de adultos. São apaixonados demais por suas ideias, como quem, diariamente, as precisa injetar nas veias e vivê-las, por mais absurdas que sejam as implicações. Nessa situação, o indivíduo torna-se completamente parcial e dependente da crença. Por sua fragilidade, esta é sempre um assunto mais urgente que a própria realidade, daí muitos se tornarem violentos em sua proteção. Mesmo que pareça paradoxal, em suas mentes tudo faz sentido, pois estão se guiando por uma realidade pessoal.

O sinal distintivo do fanático é a constante menção da importância de suas crenças pessoais para o bem-estar dos demais. Isso em geral toma a forma de discursos inflamados e profecias apocalípticas, esperando que alguém se dê ao trabalho de prestar atenção. Sendo ouvidos ou não, nunca mudarão de opinião nem de assunto. Claro que normalmente só fanáticos prestam atenção uns aos outros, já que estão disputando o monopólio físico de um mundo imaginário. Como defendem verdades pessoais em busca de um mesmo espaço, todos os fanáticos odeiam-se uns aos outros, e suas lutas basicamente consistem no fato de que uns dizem que 2+2=5, outros que 2+2=3 — mas o inimigo que odeiam em comum são osdescrentes, ou seja, os normais, que não enxergam a suposta relevância de suas fantasias, e vivem à margem de seus mundos delirantes. Como se guardassem um segredo importantíssimo, acreditam que todos precisam estar cientes das batalhas épicas sendo travadas, pois o destino do mundo está em jogo. Alguém que se mostre indiferente ante algo tão grandioso só pode ser um indivíduo abominável que deve ser convertido ou destruído. Não é uma opção deixá-lo viver em paz.

Quando, a partir de uma posição pessoal negativa, se tenta tirar implicações universais positivas, temos aí o caso geral do fanatismo. Em outras palavras: sem mim, ai do mundo! Por exemplo, ao imaginar um mundo no qual não haja valores morais objetivos, um moralista fanático perde imediatamente a compostura, prevendo toda espécie de calamidade a partir de silogismos capengas. Contudo, sendo que não houve efetivamente a destruição física de uma moral objetiva, tudo o que temos é a morte de uma crença infundada, ou seja, algo pessoal, negativo e subjetivo. Seria tolo tentarmos, a partir disso, inferir implicações universais, positivas e objetivas, como o mundo todo se afundando num caos de crimes e orgias, mas é exatamente isso o que acontece na mente dos fanáticos, pois suas crenças vêm antes da realidade.

Se fôssemos cartógrafos fanáticos, ao desenharmos um mapa-múndi, passaríamos a exigir que aquilo fosse o próprio mundo. Havendo uma ilha que escapou à nossa observação, julgaríamos mais razoável dinamitá-la ou condenar à morte todos os que a visitassem que incluí-la em nosso mapa. Claro que o mundo não passa a funcionar diferentemente apenas porque passamos a compreendê-lo de outro modo, e isso explica por que as crenças e teorias precisam de advogados, mas a realidade não; explica como pudemos “substituir” a física newtoniana pela teoria da relatividade sem que o mundo inteiro se retorcesse em convulsões espaçotemporais; explica como a Terra “passou” a girar em torno do Sol sem que caíssemos todos dela quando adotamos o heliocentrismo. Todavia, a modéstia de termos apenas uma visão de mundo não é algo que satisfaz nossa necessidade de grandeza, ainda mais quando esta beira a megalomania. Preferimos a ideia de que, se estivermos errados, não só cairão nossas crenças, mas todo o mundo também. Gostamos de pensar que nossas teorias são aquilo que permite que a realidade exista com um sentido, sem o qual cairia aos pedaços como uma árvore seca.

Naturalmente, esse tipo de arrogância estúpida é o que está na base de tudo. Um fanático nada mais é que um indivíduo que vive em função de suas crenças autistas, tendo cortado em definitivo suas relações com a realidade no que toca tais assuntos. Então, se a teoria da relatividade estivesse na Bíblia e, digamos, alguém visse a luz passear numa velocidade maior que 300 mil km/s, a reação dos indivíduos fanáticos não seria atualizar as escrituras. Como não poderão queimar a luz na fogueira, será provável que encontrem uma solução alternativa, como, por exemplo, queimar as testemunhas ou alegar que os fótons foram convocados à iluminação de uma intervenção divina. Assim, se o mundo não se comporta conforme suas teorias, a culpa é do mundo. Em seu coração, o fanático acredita que o mundo precisa dele e não sobreviveria à morte de suas convicções. Então, pelo bem de todos, declara-se o salvador e parte em sua missão de destruir tudo o que as ameace.

Esse caráter delirante de sua visão pessoal explica por que a moral dos indivíduos fanáticos é tão inflexível. Em suas mentes, a realidade moral, inventada por eles próprios, e a realidade objetiva são uma coisa só, e isso fundamenta suas missões pessoais objetivamente. Violar um preceito moral torna-se tão inadmissível, tão impensável quanto violar a física. Porém, como, nesse caso, a própria realidade material não cuidará para que isso nunca aconteça, tomam a posição de guardiões da moral: eles próprios passam a ser a lei que garante as consequências físicas das transgressões morais. Assim preservam, ao custo da devastação de tudo o que os contrarie, a integridade do mundo alternativo que têm em suas cabeças.

Se quisermos medir o fanatismo de alguém em relação a uma ideia qualquer, só precisamos ouvir suas previsões sobre o que ocorreria se estivesse errado. Quanto mais consequências exteriores houver, mais fanático e megalomaníaco é o indivíduo em sua crença. Por exemplo, “se a vida não tivesse sentido,ninguém acordaria de manhã para ir ao trabalho”, “se tudo não acontecesse por um motivo, o mundo seria uma desordem completa”. Por outro lado, conclusões cujas consequências são pessoais costumam ser apenas sinais de sensatez. Por exemplo, “se a vida não tivesse sentido, então apenas estaria me enganando”. Nesse caso, o indivíduo ainda não perdeu o contato com a realidade, mas também não a suporta muito bem.

A diferença entre as previsões de um fanático e as de uma pessoa sóbria deve-se ao fato de que o primeiro as calcula em função de suas crenças, de um mundo pessoal, e o outro em função dos fatos, da realidade comum a todos. Então, por um lado, se pedirmos a um indivíduo sensato que faça uma previsão sobre o que ocorreria caso cientistas descobrissem vida extraterrestre em um planeta distante semelhante à Terra, diria, por exemplo, que isso confirmaria que provavelmente estamos corretos em nossa compreensão sobre os mecanismos responsáveis pelo surgimento da vida. Ou seja, em essência, não aconteceria nada. O que aconteceria se descobríssemos que nossa compreensão sobre como a vida se iniciou está incorreta? Nada. Apenas teríamos de encontrar outro modo de compreender tal fenômeno. Indivíduos normais sabem diferenciar a própria realidade de sua mera visão da realidade, não consideram seu conhecimento como algo que deve ser imposto ao mundo. Por outro lado, quando pedimos a um indivíduo fanático que faça a previsão do que ocorreria caso estivesse errado, digamos, sobre o homem possuir poderes paranormais, podemos esperar que as consequências disso — por motivos incompreensíveis aos não-iniciados em sua demência — atingirão até a constituição íntima dos saca-rolhas.

Estejamos errados ou não, o fato é que nada acontece quando uma simples visão está errada, e muitos julgam que isso constitui a prova de que estão corretos, pois, se estivessem errados, as consequências seriam devastadoras. Então, por exemplo, se tivermos em nossas mãos uma bomba nuclear armada e formos os únicos que sabem desativá-la, haverá razões para nos sentirmos responsáveis pelos demais. Naturalmente, ninguém temerá que estejamos errados, mas que uma explosão nuclear vaporize suas vidas. Entretanto, quem daria atenção a uma bomba invisível que nunca explode, por mais que estejamos errados? Apenas psiquiatras. Enquanto isso, no mundo real, de manhã todos vão trabalhar, e o fato de acreditarmos que isso tenha algo a ver com o sentido da vida não muda nada.

Exigir que um fanático seja tolerante quanto aos demais pontos de vista é algo impensável. Seria como pedir ao super-homem que não salvasse o mundo por discrição. Como o escolhido poderia deixar-se reduzir ao anonimato por questão de boas maneiras? Em sua cabeça, sua guerra é crucial ao futuro da humanidade. Seu delírio deve florescer, mesmo que o mundo todo pereça.