SOFRIMENTO

A vida não vale seu custo em dor. Se considerarmos a felicidade como o objetivo da existência humana, teremos de admitir que caminhamos decididamente ao fracasso. Seria muito mais fácil defender a ideia de que o sofrimento é a verdadeira meta, pois temos muito mais fontes de moléstias que de prazeres. Numa escala relativa, nossa sensibilidade à dor é várias vezes maior que ao prazer. Há muitos mais modos de ser infeliz que o contrário. Nossas maiores dores são sempre mais intensas e duradouras que nossas maiores alegrias. Por fim, não precisamos cultivar nosso intelecto, refletir sobre o mundo ou nos empenhar em qualquer sentido para alcançar o sofrimento: ele está à disposição a qualquer momento. Para sofrer basta viver. A dor é como o elemento essencial em que estamos imersos, sendo a felicidade apenas os momentos em que conseguimos chegar à superfície e encher os pulmões de ar para, em seguida, sermos novamente tragados às profundezas. Talvez isso soe desagradável, mas, se tivéssemos de fazer uma aposta decisiva valendo a felicidade eterna, certamente colocaríamos nossa confiança na vitória final da dor sobre o prazer. Diante de uma aposta de tamanha importância, é certo que recobraríamos rapidamente a lucidez e reconsideraríamos quase instantaneamente nossas opiniões tolas a respeito dos sonhos de felicidade pessoal que cultivamos no dia a dia. Nessa perspectiva, tudo o que podemos fazer é tomar as providências necessárias para nos proteger do sofrimento. Quando alguém busca ou, ainda mais, exige felicidade de um mundo como este, miserável como é, isso já demonstra com bastante clareza o quanto ignora sua própria natureza. Um indivíduo que tivesse consciência de sua verdadeira condição seria muito mais modesto em suas pretensões à felicidade. Temos de entender que a vida, em essência, é um vírus. Chegamos até aqui graças a moléculas autorreplicantes cujo critério de seleção é a eficiência reprodutiva dos corpos que constroem. Esse critério mecânico nem chega perto de tocar coisas quase metafísicas como sonhos de felicidade pessoal. Com ou sem felicidade, a vida continuará rolando montanha abaixo no devir descabeçado da existência. Ademais, considerando que a satisfação, em geral, nos torna imprudentes e preguiçosos, faz perfeito sentido que a natureza tenha restringido sua duração a curtos momentos, seguidos de longos períodos de sofrimento que nos impelem à ação, visando a satisfação de nossas necessidades. Essa visão parece pintar o acaso como algo maldoso e cruel, mas trata-se de uma impressão superficial. Se quisermos pensar a ótica impessoal da vida enquanto um sistema maquinal, só precisamos imaginar como construiríamos um ser vivo se nosso único interesse fosse sua perpetuação. Para tanto, poderemos colocar em sua própria constituição íntima elementos que visem enganá-lo, iludi-lo, encher seu horizonte de paisagens falsas, tudo em nome da eficiência. Acrescentemos que nunca nos veremos obrigados a cumprir com nossa palavra. Tudo se resume a garantir que o sistema funcione, ainda que comgrandes doses de sofrimento. Chegaríamos, em pouco tempo, a algo bem próximo dos robôs que a natureza criou através da evolução biológica. Nossa situação não é muito diferente daquela de um burro que tem uma cenoura pendurada à sua frente. Nossa cenoura se chama felicidade. Perseguindo-a, corremos em busca de algo que jamais alcançaremos. Temos a impressão de que nascemos para ser felizes, mas apenas porque estamos presos à lógica interna de nossa natureza biológica. A condição de ser vivo nos impõe como referenciais supremos o prazer e o sofrimento. Contudo, o prazer é apenas um mecanismo psicológico arquitetado para influenciar nosso comportamento, não uma realidade à qual estamos caminhando. Isso ficará claro se considerarmos o fato de que, ao alcançarmos a satisfação de algum desejo, teremos apenas alguns instantes de prazer como recompensa e, em seguida, já nos começam a molestar novas necessidades que nos tornarão inquietos. Não tardará para que partamos novamente à ação, num ciclo de insatisfação que só terminará com a morte do indivíduo ou com a aquisição de um grão de bom senso. Constatando que a busca pela felicidade é uma cilada, poderíamos ter a sensata ideia de cruzar os braços e permanecer inertes. Parece que isso resolveria todos os problemas relacionados ao sofrimento, visto que surgem, direta ou indiretamente, de todas as coisas que desejamos com o intuito de alcançar a plenitude que aprendemos ser possível no jardim de infância. Imaginamos certo sonho e supomos que, uma vez realizado, nos daremos por satisfeitos. Porém, com o tempo, vemos que isso não acontece. Nunca acontecerá. Então faria sentido considerarmos a inação, a ausência de desejo, como uma solução. Porém, quem apostar nessa ideia logo perceberá o inconveniente óbvio, plúmbeo e incontornável chamado tédio. Uma vida mergulhada nesse elemento é tão insuportável que nos faz retornar imediatamente à ação, mesmo que saibamos ser esse um investimento sem futuro. Se, por um lado, desejar é sofrer, por outro, não desejar é impossível. Portanto, seja pela ilusão da felicidade, seja pelas torturas do tédio, somos obrigados a nos manter em atividade, e com isso nos expomos ao sofrimento. Nesse processo, a razão pode refutar a biologia o quanto quiser: está cuspindo no prato que come e, cedo ou tarde, sofrerá represálias por tentar colocar de lado nossas necessidades instintivas. O cérebro está repleto de mecanismos que detectam as tentativas de burlar as regras desta brincadeira chamada vida. Nesse jogo, podemos acreditar que existe alguma chance de vitória. Como num cassino, tudo está arquitetado no sentido de nos levar a crer que realmente temos alguma possibilidade de sucesso. Lembremo-nos, contudo, da premissa principal: a casa sempre ganha. Foi a natureza quem fez as regras, não nós — e como nossos instintos mais primitivos nos impedem de abandonar a jogatina, o destino que nos aguarda é a bancarrota certa. O fato de entendermos o mecanismo que nos leva a tal impasse pouco ajuda no sentido de mudá-lo. Como viciados crônicos, a compreensão de nosso quadro de dependência equivale a iluminar as engrenagens daquilo que nos controla — apenas tornando nossa liberdade um sonho ainda mais distante. Sabemos por que somos assim, mas essa compreensão não nos permite escapar de nossa condição. Nessa situação, tudo o que podemos fazer é jogar dentro das regras o mais inteligentemente possível, a fim de minimizar o sofrimento do qual somos vítimas constantes. Quando rejeitamos a ideia de felicidade como objetivo último da existência, devemos rejeitar também, pelos mesmos motivos, todas as noções sustentadas por essa espécie de raciocínio — ou seja, tudo o que em nossas vidas tenha relação com sentido ou propósito, todos os antropomorfismos que inserimos no mundo. Por conseguinte, a vida humana não tem sentido, não faz parte de uma realidade maior; um tropeço tem tanto sentido quanto uma morte; um coração partido tem tanta lógica quanto um pneu furado. Não há um propósito educativo por detrás daquilo que nos acontece — exceto as lições que nós mesmos tiramos dessas experiências. Será bom deixarmos isso perfeitamente claro para nós mesmos se quisermos abandonar a postura ingênua de quem fica à espera de oportunidades que, diz-se, sempre chegarão no misterioso e invisível momento certo.Por exemplo, quando acometidos por alguma desgraça, é inútil esbravejar, lançando insultos e lamúrias aos céus. Em vez de desviar o olhar com revoltas sem sentido, seria mais sensato raciocinar, olhar para nós mesmos, se quisermos encontrar respostas relevantes para nossos propósitos. Estamos cansados de ouvir o contrário, mas sabemos que infortúnios ocorrem gratuitamente, sem qualquer razão e sem qualquer compensação, assim como coisas indiferentes ou positivas. O próprio fato de não procurarmos punições para equilibrar as situações em que tivemos sorte já demonstra nossa tendência natural ao autoengano. Não há justiça, não há equilíbrio: é tudo acaso. Normalmente pensamos que isso não se aplica a seres humanos, mas apenas a terremotos, tempestades e outras calamidades da natureza. Entretanto, se adotarmos uma visão ampla o suficiente para perceber que também a vida é um fenômeno natural sobre o qual não temos nenhum controle, que surgiu e é regido pelas mesmas circunstâncias que o mundo inanimado, isso nos convencerá de que a vida, em seu coração, carrega a mesma indiferença dos fenômenos naturais. Ninguém, por exemplo, tem culpa por nascer com um caráter perverso, tampouco temos algum mérito caso possuamos algum talento especial. Podemos ser doentes numa maioria saudável — ou vice versa. Nada disso quer dizer alguma coisa. Se acreditar que tenhamos nascido por algum motivo especial já é disparatado, que dizer dos que acreditam ter nascido doentes por algum motivo? Isso tudo são apenas mentiras inofensivas que contamos a nós mesmos. Como crianças, imaginamos que no fundo, bem no fundo, a natureza se importa conosco, e apenas finge ser impassível para nos disciplinar. Aconteça o que acontecer, nunca deixaremos de nos sentir a coisa mais importante do universo. Muitos inclusive consideram tal sensação como uma “prova” de que o mundo tem planos para nossas vidas. Não fica exatamente claro como alguém, em sã consciência, pode acreditar nesse tipo de coisa. Porém, caso tenhamos dificuldades em nos distanciar dessa esperança por meio da inteligência, podemos chegar ao mesmo efeito supondo que o universo, invejoso, nunca dará o braço a torcer. Assim, nada impede que nossas vidas se passem por inteiro sem um único momento feliz. Pouco importa se nos sentimos “merecedores” de tal alegria. Somos os únicos que se importam com isso. A natureza nunca nos prometeu felicidade. Caso alguém a tenha prometido a nós, simplesmente não sabia do que estava falando. Então, caso não recebamos em vida as compensações que julgamos merecer, passar pela existência nos sentindo injustiçados não nos tornará uma prioridade na fila existencial de acasos favoráveis. Morreremos tão insatisfeitos como vivemos, e revoltar-se contra isso demonstra apenas uma lamentável postura de irreflexão.

Filosoficamente, a vida é tudo o que poderíamos considerar indesejável: banal, oca, inútil, sem sentido, como todos sabem. Contudo, não podemos afirmar que isso, por si só, implicará uma existência miserável. Embora possamos ter certeza de que a maioria dos indivíduos levará uma vida quase indigente, isso não se deve à ausência de sentido da vida ou à natureza da realidade objetiva. Talvez pareça o contrário porque tais elementos são totalmente indiferentes, e a total indiferença, em termos subjetivos, é algo que em geral consideramos negativo. O caso é que a esfera subjetiva da realidade, criada pela vida individual, tem regras que definem, em seus próprios termos, o significado da realidade exterior. Assim, nesse aspecto, tudo gira em torno de como interpretamos o mundo e o sentimos pessoalmente, não importando realmente o que o mundo é em si mesmo. Numa analogia com um computador, poderíamos entender a objetividade como o hardware e a subjetividade como o software. As regras físicas de nossa existência seriam determinadas por componentes eletrônicos, que são fixos. Porém, apesar dessa fixidez, podemos conceber inúmeros softwares que, a partir do mesmo hardware, se comportam de modos completamente distintos. Dois indivíduos quaisquer, colocados na mesma situação objetiva, podem sentir a vida de modocompletamente distinto um do outro. O mesmo estímulo pode representar dor para um e prazer para outro. Para um indivíduo faminto, uma refeição é um prazer; para outro que acabou de banquetear-se, é um martírio infindável. Desse modo, não é a realidade objetiva que define o caráter qualitativo da existência subjetiva. Nosso conhecimento a respeito da realidade objetiva apenas explica o quê e como algo acontece, mas o significado disso dependerá da interpretação do sujeito. Portanto, aquilo que nos sucede subjetivamente é uma questão completamente separada, na qual quem determina as regras é o cérebro, que cria uma espécie de realidade virtual na qual existimos como primeira pessoa, como pilotos de nossos corpos. Segue-se que a realidade criada por nossos cérebros não tem limites ou critérios definidos. Porém, como ela foi lapidada pelo critério da eficiência no lidar com a realidade, naturalmente que nossa representação do mundo tornou-se extremamente fiel. Tamanha é a uniformidade de nossa experiência sensorial do mundo que a maioria dos indivíduos usa substâncias psicoativas exatamente para, por alguns instantes, passar a ver o mundo sob outra ótica, na esperança de fugir do tédio. Podemos pensar que essa “uniformidade excessiva” é ruim, mas nos convenceremos do contrário se visitarmos um manicômio, ou seja, o lugar em que ficam isoladas as máquinas humanas com defeitos no sistema de virtualização da realidade. Em regra, isso as torna ainda mais miseráveis, pois em suas mentes há um mundo muito diferente da realidade exterior. Assim, elas tropeçam não apenas nas dores do mundo, mas também em suas próprias dores imaginárias. Naturalmente, se nada impede que soframos, também nada impediria que fôssemos seres exclusivamente felizes, exceto pelo fato de que nunca sobreviveríamos em condições naturais. Seríamos tão felizes que não nos protegeríamos dos perigos da existência. Andaríamos como bêbados sorrindo para todos os lados, alheios a tudo o que poderia nos ferir. Cairíamos num buraco gargalhando. A hemorragia interna nos faria berrar de alegria. Em vez de chamar uma ambulância, ficaríamos brincando com as fraturas expostas. Em suma, seríamos lunáticos. Não deixa de ser uma perspectiva atraente, apesar de inviável — ao menos até que haja avanços mais consistentes na área de engenharia genética e, assim, possamos finalmente brincar de deus com resultados mais satisfatórios.

Podemos, então, ser felizes ou tristes com a mesma realidade objetiva, e isso dependerá apenas de nossa ótica, ou seja, da interpretação dos fatos feita por nossos cérebros. Pois o tédio, por exemplo, não é uma realidade em si, mas um estado mental entre outros tantos. Certo livro pode ser enfadonho para uma pessoa ou interessante para outra, e pode, para a mesma pessoa, ser interessante ou enfadonho, dependendo de seu estado mental. Em função de como uma pessoa dormiu, de estar ou não bem alimentada, de um simples café, sua postura frente à existência pode ser completamente diferente. Isso se deve única e exclusivamente às mudanças que ocorrem na fisiologia de nossos cérebros, já que a realidade exterior, objetiva, permanece sempre a mesma. Um cérebro equilibrado e saudável e um corpo livre de enfermidades, ou seja, mente sã em corpo são, constituem os elementos fundamentais, os fatores mais importantes na determinação do grau de nossa satisfação ou insatisfação frente à existência. Ser saudável é muito mais relevante que, por exemplo, bens materiais, fama, prestígio etc. Não que tais coisas sejam desnecessárias, mas ocupam uma posição muito menos decisiva. É certo que a saúde, por si própria, não garante coisa alguma, mas sua ausência, por sua vez, garante que seremos desgraçados, independentemente de quão favoráveis forem as circunstâncias em que nos encontremos. Ao nos enxergarmos como máquinas que, por um lado, são estruturas físicas e que, por outro, criam uma realidade própria através de processos físico-químicos, isso nos permite acessar os dois lados do nada. Essa visão é mais ou menos equivalente à de um programador. Ao observar um software, temos a interface gráfica, que seria a parte correspondente à nossa consciência. Mas, por detrás dela,encontramos códigos que determinam seu funcionamento, seu modo particular de interagir com o hardware, ou seja, aquilo que, em nossos corpos, equivale à organização física das estruturas que constituem nossos cérebros. Assim, quando utilizamos um software para fazer cálculos, podemos explicar o mesmo fenômeno sob suas óticas distintas. Em uma, o software exibiu o número 10 porque digitamos 5+5; na outra, dado um input 5+5, o resultado 10 é inevitável. De um lado, temos a ótica subjetiva e, de outro, a ótica objetiva a respeito do mesmo fenômeno. Nossa consciência está para a interface gráfica de um software assim como os códigos que o constituem estão para os circuitos neurais de nosso cérebro. Mesmo que ambos sejam determinados pelas leis físicas da realidade objetiva, é o modo como estão organizados para cumprir uma função que faz com que se comportem segundo uma lógica própria. Somos máquinas, e podemos ver como isso, ao mesmo tempo em que nega o livre-arbítrio, não remove nossa liberdade enquanto sujeitos — pois são infinitos os modos como poderíamos programar uma máquina dentro dos termos impostos pela realidade física. Perceba-se também que, ao afirmar que somos máquinas, isso só parece uma visão limitada porque nos imaginamos como um sistema tosco de engrenagens semelhante a um relógio. Ao acrescentarmos que somos máquinas programáveis, isso nos fornece uma perspectiva muito mais satisfatória, pois, a partir das mesmas estruturas biológicas, podemos ter diferentes programações, e com elas miríades de comportamentos distintos. Desse modo, temos nosso DNA como o manual de instruções para a construção de uma máquina com um computador de bordo; os softwares instalados nesse computador, por sua vez, foram programados pela seleção natural; e nós, que somos os usuários finais desse sistema, temos a consciência como a interface gráfica a partir da qual controlamos algumas funções de nossos corpos, e recebemos também informações, internas e externas, que nos permitem monitorar o status desse sistema. Em outras palavras, a posição de nossa consciência equivale, mais ou menos, a um cargo administrativo na empresa biológica que é nosso corpo — como um gerente-geral cuja função é inspecionar elementos internos, como a saúde e os processos em andamento no sistema, e externos, como a competição, as fontes de matéria-prima e as empresas vizinhas dispostas a negociar parcerias casuais. A consciência, a partir de dados internos, pode constatar um problema em nossos níveis de energia e intervir com alimento; ou, a partir de dados externos, pode verificar a presença de perigo e intervir com agressão. Claro que há bem mais componentes em nossas máquinas que aqueles dos quais temos consciência, mas infelizmente estamos limitados à interface gráfica programada em nós pela evolução. Contudo, o próprio fato de estarmos pensando nisso já indica que a evolução deixou, propositalmente em certo sentido, uma área do programa reservada para colocarmos nossos próprios botões. Com isso, naturalmente, nos referimos ao aprendizado, que pode ocorrer com ou sem consciência. Nessa ótica, ainda estaríamos na posição de usuários comuns. O componente mais interessante da consciência humana é, sem dúvida, a capacidade de reflexão, pois ela permite que nos coloquemos na posição de um programador. Um programador cego, entretanto, pois nosso único ponto de contato direto com o mundo exterior continua sendo a interface proporcionada pelos sentidos. O intelecto pode imaginar muitas coisas a respeito do mundo em si mesmo, mas ainda precisará dos sentidos para verificar a correção dessas suposições. Caso não haja esse critério de verificação independente, nos veremos ameaçados pelo relativismo imposto pela nossa condição de sujeitos. Até o momento, o melhor método que pudemos conceber para distinguir entre teorias reais e falsas é que apenas as verdadeiras funcionam. De qualquer modo, trata-se de uma vantagem muito considerável, desde que saibamos usá-la com competência. Nessa situação, a consciência, através da reflexão abstrata, pode detectar problemas e intervir em áreas que não lhe são imediatamente acessíveis. Em outros termos, a reflexão é como uma interface estendida para usuários avançados. Os familiarizados com programação perceberão que a reflexão se assemelha a um shell dentro de um sistema gráfico pré-configurado. Ela permite, até certoponto, que programemos em nós mesmos alguns novos plug-ins personalizados. Os humanos são, portanto, além de máquinas programáveis que aprendem, as únicas capazes de entender a linguagem da realidade objetiva e programar a si próprias enquanto máquinas subjetivas. Claro que não podemos alterar a programação determinada pela evolução biológica. Podemos, contudo, desenvolver códigos que atualizem seu comportamento e, ainda mais, que corrijam seus dolorosos bugs. A área que nos proporcionou a formação necessária para agir como assistentes técnicos de nós próprios é aquilo que conhecemos como ciência. Nessa ótica, fica claro o motivo pelo qual ela exige tanta disciplina. Através da ciência, a proposta do homem, dos poucos homens sensatos dados ao pensamento racional, consiste em fundar uma universidade pública que torne os indivíduos competentes em lidar com a realidade objetiva a partir da realidade subjetiva. Não se trata, como na tradição, de seguir macetes prontos; não se trata, como na religião, de executar o script de outrem em nossas vidas. A ciência se propõe a ser um manual de programadores, uma fonte de recursos inestimável àqueles que desejam desenvolver novas tecnologias que nos permitam uma interação cada vez mais precisa e eficiente com o mundo. O resultado final disso tudo é que, agora, quando a consciência detecta uma inconsistência no grau de ansiedade geral do sistema, pode intervir com um recurso completamente novo — diazepam, ou seja, um ansiolítico que resolverá o problema sem demora. São incalculáveis os benefícios potenciais proporcionados por uma visão de mundo baseada na ciência. Entretanto, nesse caso, a imaginação não é o limite, mas apenas uma fonte de inspiração. Os verdadeiros limites são impostos pela tecnologia, que para nossa satisfação anda bem rapidamente.

Assim, limitemos nossa imaginação ao assunto que aqui nos importa, isto é, a redução do sofrimento desnecessário. A melhoria na qualidade de vida proporcionada pela ciência é, de longe, muito superior a quaisquer benefícios decorrentes da sabedoria de vida pregada por sistemas filosóficos, morais ou religiosos — mesmo todos juntos e empilhados. É fato que nada se equipara à sua eficácia. Assim, podemos poupar nossos ouvidos dos infindáveis discursos sobre virtudes e vícios. Não precisamos de metáforas explicativas ou de testemunhos de vida, pois podemos ir direto ao assunto, à realidade em si mesma, sem quaisquer intermediários obscuros. O conhecimento está à nossa disposição. Todos querem resolver seus problemas pessoais eficazmente. Entretanto, na posição de consumidores passivos, nos esquecemos de que, para resolver nossos problemas particulares, precisamos ter ao menos um conhecimento técnico suficiente para identificar, com alguma precisão, a causa real daquilo que nos incomoda. Nesse sentido, é bastante recomendável que tenhamos a prudência de depender apenas de nós mesmos nessa empreitada; do contrário precisaremos contratar os duvidosos serviços dos profissionais da psicologia humana que, em sua maioria, julgam que todas as nossas agruras do agora são resultado indireto de algum trauma metafísico ardilosamente ocultado pela misteriosa atividade mental inconsciente. Sabemos que entender nossos próprios processos mentais cientificamente requer uma quantidade razoável de investimento em estudos técnicos. Leva algum tempo até nos familiarizarmos com o linguajar próprio da ciência, que à primeira vista não é algo muito acessível. Essa aproximação inicial pode ser um pouco frustrante, mas faz-se necessária como uma educação básica sobre nós mesmos, pois, se não tivermos condições de especificar, em termos técnicos, a causa particular de nossa infelicidade, tampouco saberemos onde procurar soluções adequadas. Sequer as reconheceríamos caso topássemos com elas por acaso. Para tanto, é imprescindível que tenhamos uma visão sóbria e livre de preconceitos, que estejamos dispostos a estudar e a pesquisar bastante, pois precisaremos reorganizar muitas ideias centrais a respeito da realidade. Somente então conseguiremos conceber o funcionamento de nossos corpos emtermos físicos — inclusive nos assuntos mais importantes, íntimos e abstratos. Entretanto, como esse processo é árduo, muitos tentam tomar atalhos através de misticismos que prometem soluções mágicas para organismos físicos, como que encaixando um quadrado numa circunferência e achando isso perfeitamente normal. Nesse sentido, uma doutrina que está bastante próxima de nossa ideia central é o budismo. Segundo tal visão, viver significa sofrimento, e por isso devemos encontrar modos de nos desprendermos da vida e, assim, alcançar o que denominam nirvana, que é o estado espiritual mais elevado que o homem pode alcançar. Porém, de início, o homem não tem espírito; deixar de sofrer não nos tornará mais evoluídos, apenas menos desgraçados; o único modo de desprender-se da vida é o suicídio. São várias inconsistências. Compreender o budismo é, pois, compreender um erro — desvia-nos da essência da questão. Não importa que ambas as perspectivas cheguem ao mesmo resultado. Queremos também saber como e por que esse resultado é alcançado, e isso o budismo não pode fazer, já que explica a realidade em termos de “reencarnações”, “iluminações espirituais” e coisas do gênero. Adotar o budismo equivale a instalar em nossos sistemas um plug-in cujo código de programação não nos é acessível e, além disso, cuja linguagem a respeito do mundo não é compatível com a realidade que conhecemos. Enquanto nosso sistema biológico diz “neurotransmissor”, o budismo diz “iluminação”. São linguagens incompatíveis entre si, e só podem ser harmonizadas através da suspensão do pensamento crítico — a famosa fé. Na falta de um termo melhor, podemos designar a fé como uma gambiarra feita por aqueles que não sabem programar. Funciona, mas não se sabe por que nem como.

Há diferentes modos de abordar a dor, dependendo de qual for sua fonte. Caso tenha sua origem em fatores objetivos e externos, teremos de atacá-la com armas de mesma natureza. Caso o incômodo seja causado por falta de dinheiro, por exemplo, será inútil adotarmos posturas abstratas de alheamento social. Precisamos comer, e comida tem preço. Não há como driblar esse tipo de inconveniente. Será necessário que tomemos medidas objetivas no sentido de anular uma fonte de moléstias exterior a nós, ou seja, precisaremos encontrar uma fonte de renda, um emprego. No caso de a fonte de sofrimento ser interna, isto é, proveniente de nosso próprio organismo, devemos abordá-la como tal, tendo em mente o mecanismo de funcionamento de nossos corpos. Como explicamos, temos duas óticas a partir das quais investigar o mesmo problema. Podemos abordá-lo intuitivamente, através da introspecção, que é uma ferramenta subjetiva pré-programada em nós pela própria evolução biológica, e também podemos abordá-lo intelectualmente, empregando o conhecimento científico a respeito dos mecanismos físicos de nossos corpos. Sozinhas, ambas as abordagens são insuficientes para nossos propósitos; ficam algo perdidas em si mesmas. Somente quando observamos como cada uma repercute na outra nos tornamos capazes de intervenções eficientes e controladas sobre nós próprios. Para isso devemos, a todo custo, evitar a separação entre biológico e psicológico, entre mental e material, pois tal divisão sem sentido fatalmente termina na criação de duas realidades, e em seguida a única saída lógica consiste em reduzir uma delas a um fantasma. Então teremos de declarar a consciência como um fantasma subjetivo ou o materialismo como um fantasma intelectual. O que temos, na verdade, são óticas distintas sobre uma mesma coisa, não realidades independentes sobrepostas. Claro que apenas a ótica da ciência é objetiva, porém nossa condição de existência é a subjetividade. Reduzir o homem apenas à ótica objetiva equivale a esquecer de nós próprios — que somos, afinal, a parte mais dolorosa da equação. Queremos que o resultado final tenha algum impacto subjetivo, ainda que por procedimentos objetivos. Podemos, portanto, entender a fome subjetivamente, como a sensação que traduz a necessidade de comer, ou objetivamente, como a falta de açúcar no sangue. Se, por exemplo, tivermos a estranha ideia de injetar insulina em nossos corpos, isso nos causará fome — teremos a impressão de que não nosalimentamos há dias. Se, depois disso, injetarmos glicose, ela passará. A fome, assim como o sofrimento como um todo, só existe em nossas mentes. Porém, declará-la um fantasma subjetivo não diminuirá nosso desconforto, assim como negar sua origem objetiva não fará com que a glicose deixe de surtir efeito. Nosso cérebro está programado para traduzir a realidade em termos relevantes ao sujeito; a ciência procura descrever a realidade em função de si mesma, numa ótica imparcial. Temos, portanto, as óticas subjetiva e objetiva sobre a mesma coisa. Uma fala em primeira pessoa, a outra, em terceira; uma é o sujeito, a outra é a razão; uma ótica é fruto da evolução biológica, a outra nós mesmos desenvolvemos através da reflexão e da pesquisa. As duas óticas empregam linguagens que não conversam muito bem entre si, pois nasceram em função de diferentes pressupostos — a primeira visa a sobrevivência enquanto a segunda visa o conhecimento. Considerando sua tarefa original, ambas funcionam respeitavelmente bem. Porém, considerando que só há uma realidade, é como se houvéssemos descoberto aquilo que existe a partir daquilo que não existe.

Apenas agora chegamos à verdadeiramente grande questão: e daí? Daí que é importante entendermos o mundo para viver. O conhecimento nos permite lidar com o mundo mais eficazmente. Isso tudo foi exposto para compreendermos que, por exemplo, quando estivermos tristes, mesmo com bons motivos, devemos ter em mente que a tristeza ainda pode ser reduzida à nossa química cerebral, não havendo nisso qualquer reducionismo. Tal fato pode ser demonstrado experimentalmente pela administração de alguma substância que atue em nossos neurotransmissores. Com isso, podemos passar de tristes para eufóricos, de melancólicos para desesperados, de suicidas para super-homens. Com a simples alteração de nossa química cerebral, muda também o teor afetivo de nossa visão subjetiva da realidade — e estranho seria se não mudasse. Para nos convencermos disso, tomemos como exemplo a tristeza decorrente daquilo que designamos como coração partido. Amávamos alguém, e esse alguém nos abandona: ó mundo cruel. Sofremos imensamente, é verdade, mas não costumamos ver nada de químico nisso. Pensamos tratar-se de alguma dor metafísica inexplicável. Contudo, se tomarmos a louvável iniciativa de pensar no assunto com objetividade, veremos que a dor de um amor malogrado assemelha-se muito ao quadro de abstinência que dependentes químicos experimentam ao tentar abandonar o vício. Em ambas as situações, as dores são intensas, prolongadas e angustiantes. O sofrimento, de início, é terrível e esmagador, mas se atenua com o tempo. Se recuperarmos nosso objeto de desejo, o desconforto desaparece imediatamente. Se existem muitas similaridades entre ambas as coisas, isso acontece por um motivo muito simples: em nosso cérebro, tudo é químico. O amor é tão químico quanto a cocaína, e igualmente viciogênico — ele pode tornar os indivíduos imprudentes, levá-los a realizar atos tão extremos quanto os motivados pelo uso abusivo de qualquer outra substância psicoativa, sendo responsável pela destruição de muitas vidas. Drogas potentes fazem isso, sejam elas endógenas ou exógenas. Logicamente, é incômodo pensar em nosso cérebro como um traficante. Quando ele nos vicia em algo, preferimos ser poéticos, dizer que fomos atingidos pela flecha do cupido. Porém, quando preferimos ser realistas, vemos que amar uma pessoa é estar viciado nela. Quando nos acostumamos a usar uma pessoa para satisfazer nossas necessidades, tornamo-nos dependentes dela, exatamente como um viciado que usa drogas para satisfazer-se. Outra similaridade é que, quando usamos alguma droga pela primeira vez, o efeito é fortíssimo. Entretanto, com o tempo, tornamo-nos resistentes, e precisamos de doses cada vez maiores para sentir o mesmo efeito. Com o uso prolongado, fica mais difícil abandonar o vício, e configura-se um quadro de dependência. Tendo isso em mente, observemos os seguintes fatos. Quando nos apaixonamos, o sentimento é arrebatador, assim como uma primeira dose de narcótico. Ficamos efetivamente entorpecidos, nossa personalidade muda completamente. Que outra explicação poderia haver senão queestamos dopados, e pelo nosso próprio cérebro? Como seria de se esperar, essa mesma paixão, sendo algo químico, deixa de ser tão intensa depois de algum tempo. Com o passar dos anos, tudo se esfria, e fatalmente chegamos ao ponto em que aquela mesma pessoa que outrora amávamos loucamente passa a ser um objeto de indiferença. Parece que não sentimos mais nada, que não precisamos mais daquela pessoa — e continuamos com essa impressão até que ela decida nos abandonar. Somente então experimentamos uma dor pungente que nos faz voltar a desejá-la desesperadamente. Pensamos nela o dia todo, todos os dias, coisa que comumente chamamos de “saudade”, embora não seja mais que uma abstinência exatamente igual à de um viciado que não tem dinheiro para custear a próxima dose de narcótico. Isso tudo, a princípio, parece bizarro e surreal; uma hipótese absurda. Até admitimos que tais fatos possam aplicar-se a animais, a algumas pessoas que odiamos, mas nunca a nós, pois nossos sentimentos são tão sublimes que transcendem a física, a química, a biologia, a sensatez. Podemos inventar quantas explicações quisermos para nos colocarmos à parte da realidade. O resultado será apenas que continuaremos ignorantes sobre aquilo que realmente nos move. Quando explicamos o arco-íris, isso não remove a beleza de suas cores. Igualmente, quando racionalizamos o amor, isso não significa que deixaremos de senti-lo. A razão e a emoção são duas instâncias relativamente independentes em nossas vidas mentais. Entender sentimentos não muda coisa alguma quanto àquilo que sentimos, só quanto àquilo que sabemos. Podemos tomar um calmante racionalmente, sabendo que ele é químico, mas ele fará o mesmo efeito, sentiremos intimamente suas repercussões, do mesmo modo como sentimos o amor. Não há como justificar uma postura segundo a qual o amor é verdadeiro e a sedação é falsa, pois ambos os efeitos são igualmente verdadeiros, isto é, reais. Gostemos ou não, a ciência já demonstrou que as coisas funcionam assim. Se quisermos mais detalhes sobre tais processos, basta consultar algum livro do ramo. Veremos tudo muito bem explicado, para o desespero dos românticos. Vendo a questão dessa ótica, torna-se irrelevante se um vício ocorre natural ou artificialmente. O importante está em percebermos que podemos explicar ambas as coisas objetivamente, pelos mesmos mecanismos mentais. A maioria dos indivíduos não gosta de descrições objetivas de sentimentos porque nelas parece faltar a coisa mais “essencial”, ou seja, o próprio sentimento e sua imensurável importância. Mas isso acontece apenas porque sentimentos só existem subjetivamente. Como, numa explicação objetiva, o sujeito fica necessariamente excluído, não poderia haver nela elementos que só dizem respeito ao contexto de suas mentes, como a sensação de tristeza. Contudo, tal fato não torna a explicação insatisfatória ou incompleta, pois aquilo que para nós parece faltar na explicação objetiva são exatamente os elementos subjetivos criados por nós mesmos, que nunca poderiam estar presentes numa descrição objetiva da realidade física. Quando somos objetivos, o sujeito sai da equação. Passamos a vê-lo como um fato, não como um ser humano. Evidentemente, não há como conceber uma tristeza sem sujeito. Um laboratório pode analisar o cérebro de um indivíduo deprimido, mas não sentimos tristeza ao ler relatórios sobre seus padrões neuroquímicos. Porém, quando estivermos deprimidos, se formos ao mesmo laboratório e nos submetermos à mesma análise, veremos que os resultados serão os mesmos, ou muito parecidos, e dessa vez provavelmente compreenderemos a relação que existe entre uma coisa e outra. Apesar do inegável desencanto que experimentamos, tudo fica mais claro quando compreendemos como a tristeza acontece objetivamente no cérebro do sujeito, quando entendemos a química desse processo. Se encontrarmos cobaias masoquistas, poderemos até reproduzir tal experiência subjetiva por procedimentos objetivos, tornando muito improvável a hipótese de estarmos errados nessa compreensão. Temos, pois, fatos concretos diante de nós, e isso basta para que sejamos capazes de compreender o fenômeno de modo satisfatório. Os poetas tentaram, mas foi apenas a ciência que finalmente conseguiu definir o amor.

Como vemos, na mesma medida em que a vida é banal e sem sentido, também é mais compreensível do que comumente supomos. Os detalhes específicos do funcionamento de nossos corpos não são exatamente simples, mas, no todo, não há nenhum mistério quanto aos mecanismos responsáveis por nossas vidas, com todas as suas dores e meias-alegrias. Nossas visões particulares da vida, e mesmo a milenar sabedoria dos antigos, podem então ser atualizadas para se beneficiarem da tecnologia moderna, esse presente caído da sensatez humana. Podemos ter perfeita consciência da nulidade da vida, mas isso não precisa fazer com que nos passemos por vítimas do acaso sob o pretexto da naturalidade. Podemos manusear nossa disposição frente ao mundo através da inteligência de modo a minimizar nossa exposição ao sofrimento gratuito. Isso não abrirá para nós as portas da felicidade. Porém, pode tornar a vida muito mais calma e suportável. Assim, nosso ponto de partida para evitar o sofrimento consiste em garantir a saúde de nossos corpos. Depois, nos limitaremos a localizar os elementos que nos incomodem e a buscar modos de neutralizá-los pelos meios que julgarmos mais adequados. Quanto mais banais forem nossas dores, mais próximos estaremos do ideal de ausência de sofrimento. Até chegarmos ao ponto em que, virtualmente livres de moléstias, precisemos apenas de ocupações que nos distraiam para evitar o tédio. Isso é o mais próximo que podemos chegar de uma existência plena. Quem conseguir alcançar um estado no qual se encontre longe dos tormentos desnecessários da vida, provenientes, quase todos, de nossa ânsia irracional pela felicidade, já pode considerar-se um indivíduo infinitamente menos miserável que a maior parte da humanidade. A felicidade poderia, nesse sentido, ser definida como um estado de satisfação perfeita, um ponto cujo valor equivale a zero sofrimento. Se representarmos tal estado por um ponto no espaço, todo distanciamento desse ponto será sentido constante e positivamente como dor, e toda diminuição da distância, apenas durante o movimento de aproximação, será sentido como prazer. Depois passaremos novamente a perceber apenas a dor causada pela distância ainda existente entre nós e o estado ideal. Quando próximos desse ponto, estaremos seguros, não felizes, e ainda precisaremos continuar nos movendo constantemente por meio de pequenas ocupações, como insetos em torno de uma lâmpada, a fim de evitar o tédio. Por sua vez, o tédio pode ser entendido metaforicamente como a apreensão da falta de sentido da vida em si mesma.