O GENE EGOÍSTA 001 POR QUE SÃO AS PESSOAS --------------------------------------------------------------------

CAPÍTULO 1

POR QUE SÃO AS PESSOAS?

A vida inteligente em um planeta torna-se amadurecida quando pela primeira vez compreende a razão da sua própria existência. Se criaturas superiores provindas do espaço algum dia visitarem a Terra, a primeira pergunta que farão, a fim de avaliar o nível de nossa civilização será: "Eles já descobriram a evolução?" Organismos vivos haviam existido sobre a Terra, sem nunca saberem porque, por mais de três bilhões de anos, antes que a verdade finalmente ocorresse a um deles. Seu nome era Charles Darwin. Para ser justo, outros tiveram intuições da verdade, mas foi Darwin quem pela primeira vez montou uma explicação coerente e convincente de por que nós existimos. Darwin nos tornou possível dar uma resposta sensata à criança curiosa cuja pergunta serve de título a este capítulo. Não mais temos que recorrer à superstição quando defrontados com os problemas profundos: há um sentido para a vida? Para que existimos? O que é o homem? Depois de formular a última dessas questões, o eminente zoólogo G.G. Simpson assim se expressa: "O que quero esclarecer agora é que todas as tentativas de responder esta pergunta antes de 1859 são inúteis e que será melhor para nós ignorá-las completamente".

Hoje, a teoria da evolução está quase tão sujeita à dúvida quanto a teoria de que a Terra gira ao redor do Sol, mas as implicações plenas da revolução de Darwin ainda estão por serem amplamente compreendidas. A Zoologia ainda é uma matéria minoritária nas universidades e até mesmo aqueles que a escolhem frequentemente tornam esta decisão sem perceber seu significado filosófico profundo. A Filosofia e as matérias conhecidas como "Humanidades" ainda são ensinadas quase como se Darwin nunca houvesse existido. Sem dúvida, isto mudará com o tempo. De qualquer forma, este livro não pretende ser uma defesa geral do darwinismo. Em vez disto, ele explorará as consequências da teoria da evolução para uma questão específica. Meu propósito é examinar a biologia do egoísmo e do altruísmo.

Independente de seu interesse acadêmico, a importância humana deste assunto é óbvia. Ele toca todos os aspectos de nossas vidas sociais, nosso amor e ódio, luta e cooperação, doação e roubo, nossa ganância e nossa generosidade. Estas são as pretensões que poderiam ter sido atribuídas à obra On Aggression de Lorenz, The Social Contract de Ardrey e Love and Hate de Eibl-Eibesfeldt. O problema com esses livros é que seus autores erraram total e completamente. Eles erraram porque interpretaram mal como a evolução funciona. Fizeram a suposição errônea de que o importante na evolução é o bem da espécie (ou grupo) e não o bem do indivíduo (ou gene). É irônico que Ashley Montagu criticasse Lorenz como um "descendente direto dos pensadores do tipo ‘natureza sangrenta de dentes e garras’ do século dezenove...". Como eu entendo a ideia de evolução de Lorenz, ele concordaria inteiramente com Montagu em rejeitar as implicações da famosa frase de Tennyson. Diferentemente de ambos, acho que a "natureza sangrenta de dentes e garras" resume admiravelmente nossa compreensão moderna da seleção natural.

Antes de começar meu argumento propriamente dito, quero explicar rapidamente que tipo de argumento ele é e que tipo de argumento ele não é. Se nos fosse dito que um homem havia vivido uma vida longa e próspera no mondo dos "gangsters" de Chicago, estaríamosjustificados em fazer algumas suposições sobre que tipo de homem ele era. Poderíamos esperar que ele tivesse qualidades tais como resistência, um dedo rápido no gatilho e a habilidade de atrair amigos leais. Estas não seriam deduções infalíveis, mas você pode fazer algumas inferências sobre o caráter de um homem se souber alguma coisa sobre as condições nas quais ele sobreviveu e prosperou. O argumento deste livro é que nós, e todos os outros animais, somos máquinas criadas por nossos genes. Assim como "gangsters" de Chicago, nossos genes sobreviveram, em alguns casos por milhões de anos, em um mundo altamente competitivo. Isto nos permite esperar certas qualidades em nossos genes. Sustentarei que uma qualidade predominante a ser esperada em um gene bem sucedido é o egoísmo implacável. Este egoísmo do gene geralmente originará egoísmo no comportamento individual. No entanto, como veremos, existem circunstâncias especiais nas quais um gene pode atingir melhor seus próprios objetivos egoístas cultivando uma forma limitada de altruísmo ao nível dos animais individuais. "Especiais" e "limitada" são palavras importantes na última sentença. Por mais que desejemos acreditar diferentemente, o amor e o bem-estar universais da espécie como um todo são conceitos que simplesmente não têm sentido na evolução.

Isto leva-me a primeira questão que quero esclarecer sobre o que este livro não é. Não estou defendendo uma moralidade baseada na evolução. Estou dizendo como as coisas evoluíram. Não estou dizendo como nós, humanos, moralmente temos que nos comportar. Enfatizo isto porque sei que corro o risco de ser mal interpretado por aquelas pessoas, bastante numerosas, que não podem distinguir uma afirmação de crença no que ocorre, de uma defesa do que deve ocorrer. Minha própria impressão é que seria muito desagradável viver em uma sociedade humana baseada simplesmente na lei do gene de egoísmo implacável universal. Mas, infelizmente, não importa o quanto deploremos algo, este algo não deixa de ser verdadeiro. Este livro pretende principalmente ser interessante, mas se você for extrair uma lição de moral dele, leia-o como uma advertência. Fique advertido que se você desejar, como eu o desejo, construir uma sociedade na qual os indivíduos cooperem generosa e desinteressadamente para um bem comum, você poderá esperar pouca ajuda da natureza biológica. Tentemos ensinar generosidade e altruísmo, porque nascemos egoístas. Compreendamos o que nossos próprios genes egoístas tramam, porque assim, pelo menos, poderemos ter a chance de frustrar seus intentos, uma coisa que nenhuma outra espécie jamais aspirou fazer.

Como corolário dessas observações sobre ensino, é uma falácia – e, a propósito, bastante comum – supor que características herdadas geneticamente são por definição fixas e inalteráveis. Nossos genes poderão nos instruir a ser egoístas, mas não estamos necessariamente compelidos a obedecê-los por toda nossa vida. Talvez seja mais difícil aprender altruísmo do que seria se fôssemos programados geneticamente para ser altruístas. Entre os animais, o homem é dominado de maneira singular pela cultura, pelas influências aprendidas e transmitidas. Alguns diriam que a cultura é tão importante que os genes, egoístas ou não, são virtualmente irrelevantes para a compreensão da natureza humana. Outros discordariam. Tudo depende de que lado você está no debate sobre "natureza versus criação" como determinantes dos atributos humanos. Isto leva-me a segunda coisa que este livro não é: ele não é uma defesa de uma posição ou outra na controvérsia natureza/criação. Naturalmente tem-no minha opinião a respeito disto, mas não irei enunciá-la, exceto na medida em que ela está implícita na concepção de cultura que apresentarei no último capítulo. Se os genesrealmente se mostrarem ser totalmente irrelevantes para a determinação do comportamento humano moderno, se nós realmente formos únicos com respeito a isto dentre os animais, ainda é, pelo menos, interessante indagar sobre a regra da qual tão recentemente nos tornamos a exceção. E se nossa espécie não for tão excepcional como poderemos querer acreditar, é ainda mais importante que estudemos a regra.

A terceira coisa que este livro não é, é um relatório descritivo do comportamento detalhado do homem ou de qualquer outra espécie animal em particular. Usarei detalhes factuais apenas como exemplos ilustrativos. Não direi: "se você olhar para o comportamento de babuínos verificará que é egoísta; portanto, é provável que o comportamento humano seja egoísta também". A lógica do meu argumento de "‘gangster’ de Chicago" é bastante diferente. É a seguinte: seres humanos e babuínos evoluíram por seleção natural. Se você examinar a maneira como a seleção natural funciona, parece resultar que qualquer coisa que tenha evoluído por seleção natural deva ser egoísta. Portanto, devemos esperar que quando de fato examinamos o comportamento de babuínos, seres humanos e todas as outras criaturas vivas, verificaremos que é egoísta. Se verificarmos que nossa expectativa está errada, se notarmos que o comportamento humano é realmente altruísta, então estaremos diante de uma coisa intrigante, uma coisa que precisa ser explicada.

Antes de prosseguir, precisamos de uma definição. Uma entidade, tal como um babuíno, é dita altruísta se ela se comporta de maneira a aumentar o bem-estar de outra entidade semelhante, às suas próprias custas. O comportamento egoísta tem exatamente o efeito contrário. "Bem-estar" é definido como "possibilidades de sobrevivência", mesmo se o efeito sobre a expectativa real de vida e de morte for tão pequeno que pareça desprezível. Uma das consequências surpreendentes da versão moderna da teoria darwiniana é que influências mínimas aparentemente triviais sobre a probabilidade de sobrevivência podem ter um impacto importante na evolução. Isto deve-se ao imenso tempo disponível para que tais influências se façam sentir.

É importante entender que as definições acima de altruísmo e egoísmo são comportamentais, não subjetivas. Não estou preocupado aqui com a psicologia de motivos. Não discutirei se as pessoas que se comportam altruisticamente estão "realmente" fazendo-o por motivos egoístas secretos ou inconscientes. Talvez elas estejam e talvez elas não estejam, e talvez nunca possamos saber, mas de qualquer forma não é disto que este livro trata. Minha definição relaciona-se apenas com se o efeito de um ato é diminuir ou aumentar as expectativas de sobrevivência do suposto altruísta e as expectativas de sobrevivência do suposto beneficiado.

É muito complicado demonstrar os efeitos do comportamento nas perceptivas de sobrevivência a longo prazo. Na prática, quando aplicamos a definição ao comportamento real, devemos nela introduzir uma ressalva com a palavra "aparentemente". Um ato aparentemente altruísta é aquele que parece, superficialmente, tender a aumentar (não importa quão ligeiramente) a probabilidade do altruísta morrer e do favorecido sobreviver. No exame mais detalhado verifica-se frequentemente que atos de aparente altruísmo na realidade são egoísmo disfarçado. Novamente, não quero dizer que os motivos básicos são egoístas, mas que os efeitos reais do ato nas perspectivas de sobrevivência são o inverso daquilo que originalmente pensamos.

Darei alguns exemplos de comportamento aparentemente egoísta e aparentementealtruísta. É difícil suprimir hábitos subjetivos de pensamento quando lidamos com nossa própria espécie, de modo que escolherei, em vez disto, exemplos de outros animais. Em primeiro lugar alguns exemplos variados de comportamento egoísta de animais individuais.

Gaivotas de cabeça preta nidificam em grandes colônias, os ninhos estando separados de apenas poucos palmos. Quando os filhotes eclodem são pequenos, indefesos e fáceis de serem engolidos. É bastante comum uma gaivota esperar que um vizinho vire as costas, talvez enquanto ele está fora pescando, e então lançar-se sobre um de seus filhotes e engoli-lo inteiro. Ela, desta forma, obtém uma boa refeição nutritiva sem ter que se dar ao trabalho de capturar um peixe e sem ter que deixar seu próprio ninho desprotegido.

Mais bem conhecido é o canibalismo macabro das fêmeas do louva-a-deus. O louva-a- deus é um inseto carnívoro grande. Ele normalmente come insetos menores tais como moscas, mas ataca quase qualquer coisa que se mova. No acasalamento, o macho sobe cautelosamente na fêmea, monta-a e copula. Se a fêmea tiver a oportunidade, ela o comerá, começando por abocanhar sua cabeça, quando o macho está se aproximando, imediatamente após ele montar, ou após separarem-se. Pareceria mais sensato para ela esperar até que a cópula se complete antes de começar a comê-lo. Mas a perda da cabeça parece não desalentar o resto do corpo do macho em seu avanço sexual. De fato, como a cabeça do inseto é sede de alguns centros nervosos inibidores, é possível que a fêmea melhore o desempenho sexual do macho ao comer sua cabeça. Se assim for, este é um benefício adicional. O benefício primário é ela obter uma boa refeição.

A palavra "egoísta" talvez pareça muito branda para expressar casos extremos tais como canibalismo, embora estes encaixem-se bem em nossa definição. Talvez possamos ter simpatia mais diretamente para com o comportamento covarde descrito dos pinguins imperiais da Antártica. Eles têm sido vistos em pé à beira d’água, hesitando antes de mergulhar, devido ao perigo de serem comidos por focas. Se apenas um deles mergulhasse, os demais saberiam se havia uma foca ou não. Naturalmente nenhum deles quer ser a cobaia, de modo que eles esperam e algumas vezes até mesmo tentam se empurrar para a água.

Mais comumente, o comportamento egoísta consiste simplesmente em recusar a compartilhar algum recurso valioso, como alimento, território ou parceiros sexuais. Agora, alguns exemplos de comportamento aparentemente altruísta.

O comportamento de aferroar das abelhas operárias é uma defesa muito eficaz contra ladrões de mel. Mas, as abelhas que aferroam são combatentes kamikazes. No ato de picar, órgãos internos vitais são geralmente arrancados do corpo e a abelha morre logo em seguida. Sua missão suicida talvez tenha salvo os estoques vitais de alimento da colônia, mas ela própria não pode usufruir os benefícios. Pela nossa definição este é um ato de comportamento altruísta. Lembre-se que não estamos falando de motivos conscientes. Eles podem ou não estar presentes, tanto aqui como nos exemplos de egoísmo, mas são irrelevantes para nossa definição.

Sacrificar a vida pelos amigos é obviamente altruísta, mas correr um pequeno risco por eles também o é. Muitos pássaros pequenos, quando veem um predador voando, como um gavião, dão um "grito de alarme" característico, em consequência do qual todo o bando se põe em fuga. Há evidência indireta de que o pássaro que dá o grito de alarme se expõe particularmente ao perigo, pois atrai a atenção do predador especialmente para si. Este é apenas um leve risco adicional, mas parece, no entanto, pelo menos à primeira vista,corresponder a um ato altruísta pela nossa definição.

Os atas mais comuns e mais conspícuos de altruísmo animal são realizados pelos pais, especialmente pelas mães, em relação a seus filhos. Eles podem incubá-los, ou em ninhos ou em seus próprios corpos, alimentá-los com enormes sacrifícios para si e correr grandes riscos ao protegê-los de predadores. Para citar apenas um exemplo particular, muitos pássaros que nidificam no chão realizam o chamado "comportamento de distração" quando um predador, como uma raposa, se aproxima. Um dos pais afasta-se do ninho maneando, mantendo uma asa aberta como se ela estivesse quebrada. O predador, percebendo uma presa fácil, é atraído para longe do ninho contendo os filhotes. Finalmente a ave cessa seu fingimento e lança-se ao ar exatamente à tempo de escapar das mandíbulas da raposa. Ela provavelmente terá salvo a vida de seus filhotes, mas com algum risco para si.

Não estou tentando defender uma posição contando histórias. Exemplos escolhidos nunca são evidência séria de qualquer generalização importante. Essas histórias são dadas simplesmente como ilustrações do que quero dizer com comportamento altruísta e egoísta ao nível de indivíduos. Este livro mostrará como tanto o egoísmo como o altruísmo individuais são explicados pela lei fundamental que estou chamando de egoísmo do gene. Mas, primeiro devo tratar de uma explicação particular errônea de altruísmo, porque ela é amplamente conhecida e até mesmo amplamente ensinada nas escolas.

Esta explicação está baseada numa concepção errada que já mencionei, segundo a qual as criaturas vivas evoluem para fazer coisas "pelo bem da espécie" ou "pelo bem do grupo". É fácil ver como esta ideia teve origem na Biologia. Grande parte da vida de um animal é dedicada à reprodução e a maioria dos atas de autos sacrifício altruísta observados na natureza são realizados pelos pais para com seus filhotes. "Perpetuação da espécie" é um eufemismo comum para reprodução e é, inegavelmente, uma consequência da reprodução. É necessário apenas uma ligeira deturpação da lógica para deduzir que a "função" da reprodução é "de" perpetuar a espécie. Daí basta um pequeno passo falso para concluir que os animais em geral se comportarão de forma a favorecer a perpetuação da espécie. O altruísmo em relação aos outros membros da espécie parecerá resultar.

Esta linha de pensamento pode ser posta em termos vagamente darwinianos. A evolução trabalha através da seleção natural e esta significa a sobrevivência discriminada do mais "apto". Mas, estamos falando sobre os indivíduos mais aptos, as raças mais aptas, as espécies mais aptas, ou sobre o que? Para alguns propósitos isto não importa muito, mas quando estamos falando sobre altruísmo é obviamente crucial. Se forem espécies que estão competindo no que Darwin chamou de luta pela existência, parece melhor considerar o indivíduo como um peão no jogo, a ser sacrificado quando o interesse mais importante da espécie como um todo o exigir. Expressando de maneira um pouco mais respeitável, um grupo, como uma espécie ou uma população dentro de uma espécie, cujos membros individuais estejam preparados para se sacrificar pelo bem-estar do grupo, poderá ter menos probabilidade de se extinguir do que um grupo rival cujos membros individuais coloquem seus próprios interesses egoístas em primeiro lugar. Consequentemente, o mundo torna-se povoado principalmente de grupos consistindo de indivíduos que se sacrificam a si próprios. Esta é a teoria da "seleção de grupo", há muito considerada verdadeira pelos biologistas não familiarizados com os detalhes da teoria da evolução, lançada em um livro famoso de V. C. Wynne-Edwards e popularizada por Robert Ardrey no livro The Social Contract. Aalternativa ortodoxa é normalmente chamada "seleção individual", embora pessoalmente eu prefira falar em seleção de gene.

A resposta imediata dos adeptos da seleção individual ao argumento apresentado seria mais ou menos assim. Mesmo no grupo dos altruístas quase com certeza haverá uma minoria dissidente a qual se recusa a fazer qualquer sacrifício. Se houver apenas um rebelde egoísta, pronto a explorar o altruísmo dos demais, então ele, por definição, tem maior probabilidade do que os últimos de sobreviver e ter filhos. Cada um desses filhos tenderá a herdar suas características egoístas. Após várias gerações desta seleção natural, o "grupo altruísta" será sobrepujado pelos indivíduos egoístas e será indistinguível do grupo egoísta. Mesmo se assumirmos a existência casual inicial improvável de grupos altruístas puros sem rebeldes, é muito difícil imaginar o que impediria indivíduos egoístas de imigrar de grupos egoístas vizinhos e, por meio de cruzamentos mistos, de contaminar a pureza dos grupos altruístas.

O adepto da seleção individual admitiria que grupos realmente desaparecem e que o fato de um grupo extinguir-se ou não pode ser influenciado pelo comportamento dos indivíduos naquele grupo. Ele talvez até admita que se ao menos os indivíduos em um grupo tivessem o dom da previsão poderiam perceber que à longo prazo é de seu interesse refrear sua ganância egoísta para impedir a destruição do grupo todo. Quantas vezes isto já deve ter .ido dito, nos últimos anos, aos trabalhadores da Grã-Bretanha? Idas, a extinção de um grupo é um processo lento comparado com a luta rápida da competição individual. Mesmo enquanto o grupo declina vagarosa e inexoravelmente, indivíduos egoístas prosperam à curto prazo às custas dos altruístas. Os cidadãos da Grã-Bretanha podem ou não ter sido favorecidos com o dom da previsão, mas a evolução é cega para com o futuro.

Embora a teoria de seleção de grupo atualmente receba pouco suporte entre as fileiras daqueles biologistas profissionais que compreendem a evolução, ela de fato é muito atraente intuitivamente. Gerações sucessivas de estudantes de Zoologia admiram-se, quando entram na universidade provenientes da escola secundária, ao verificar que ela não constitui o ponto de vista ortodoxo. Dificilmente se poderia culpá-los por isto, pois no Nuffield Biology Teachers’ Guide, um guia de ensino de Biologia escrito para professores de nível avançado da escola secundária na Grã-Bretanha, encontramos o seguinte: "Nos animais superiores o comportamento poderá assumir a forma de suicídio individual para assegurar a sobrevivência da espécie." O autor anônimo deste guia placidamente ignora o fato de que ele disse algo controvertido. A este respeito ele está em companhia de ganhadores do prêmio Nobel. Konrad Lorenz, em seu livro On Aggression, fala das funções "preservadoras da espécie" do comportamento agressivo, uma dessas funções sendo garantir que apenas os indivíduos mais bem adaptados possam procriar. Este é um belo argumento circular, mas o que estou alegando aqui é que a ideia de seleção de grupo é tão arraigada que Lorenz, assim como o autor do Nuffield Guide, evidentemente não percebeu que suas afirmações iam de encontro à teoria darwiniana ortodoxa.

Recentemente ouvi um lindo exemplo da mesma coisa em um programa de televisão, fora isto excelente, da B.B.C., sobre aranhas da Austrália. A "especialista" do programa mencionou que a grande maioria das aranhas jovens termina como presa de outras espécies. Ela, então, acrescentou: "Talvez este seja o propósito verdadeiro de sua existência já que é preciso apenas que algumas sobrevivam para que a espécie seja preservada"!

Robert Ardrey, no livro The Social Contract, usou a teoria de seleção de grupo paraexplicar toda a ordem social em geral. Ele claramente vê o homem como uma espécie que desviou-se do caminho da integridade animal. Ardrey, pelo menos, fez suas lições de casa. Sua decisão de discordar da teoria ortodoxa foi consciente e por isso ele merece consideração.

Talvez uma razão para a teoria de seleção de grupo ser tão atraente é que ela harmoniza- se inteiramente com os ideais morais e políticos que a maioria de nós compartilha. Podemos frequentemente nos comportar egoisticamente como indivíduos, mas em nossos momentos mais idealistas reverenciamos e admiramos aqueles que colocam em primeiro lugar o bem-estar dos outros. No entanto, ficamos um pouco confusos sobre quão amplamente queremos interpretar a palavra "outros". frequentemente altruísmo dentro de um grupo condiz com egoísmo entre grupos. Esta é uma base do sindicalismo. Em outro nível a nação é uma beneficiada importante de nosso autossacrifício altruísta e espera-se que os rapazes morram, como indivíduos, para maior glória de seu país como um todo. Além disto, eles são encorajados a matar outros indivíduos sobre os quais nada se sabe a não ser que pertencem a uma nação diferente. (Curiosamente, apelos em tempo de paz aos indivíduos para que façam algum sacrifício pequeno na taxa pela qual aumentam seu padrão de vida parecem ser menos eficazes do que apelos em tempo de guerra aos indivíduos para que sacrifiquem suas vidas.)

Recentemente tem havido uma reação contra racialismo e patriotismo e uma tendência a adotar toda a espécie humana como objeto de nossa simpatia. Este alargamento humanístico do alvo de nosso altruísmo possui um corolário interessante, o qual novamente parece apoiar a ideia do "bem da espécie" em evolução. Os politicamente liberais, os quais normalmente são os porta-vozes mais convencidos da ética da espécie, agora frequentemente exibem grande escárnio por aqueles que foram um pouco além na ampliação de seu altruísmo, de forma a incluir outras espécies. Se eu disser que estou mais interessado em impedir o massacre de grandes baleias do que em melhorar as condições de habitação das pessoas, provavelmente chocarei alguns de meus amigos.

A sensação de que membros da própria espécie merecem consideração moral especial, em comparação com membros de outras espécies, é antiga e profunda. Matar pessoas sem se estar em guerra é considerado o crime mais sério normalmente cometido. A única coisa proibida mais energicamente por nossa cultura é comer pessoas (mesmo se elas já estiverem mortas). No entanto, apreciamos comer membros de outras espécies. Muitos de nós recuamos diante da execução judiciária até mesmo do mais horrendo criminoso humano, ao mesmo tempo que aprovamos alegremente que se atire sem julgamento em animais daninhos razoavelmente inofensivos. De fato, matamos membros de outras espécies inofensivas como meio de recreação e diversão. Um feto humano, não possuindo mais sentimento humano do que uma ameba, goza de respeito e proteção legal muito maiores do que aqueles dispensados a um chimpanzé adulto. No entanto, o chimpanzé sente, pensa e – segundo evidência experimental recente – talvez seja capaz até de aprender uma forma de linguagem humana. O feto pertence a nossa própria espécie e por causa disto imediatamente lhe são conferidos privilégios e direitos especiais. Se a ética do "especiecismo", para usar o termo de Richard Ryder, pode ser apoiado em um fundamento lógico mais sólido do que a ética do "racismo", eu não sei. O que sei é que ela não tem base adequada na biologia evolutiva.

A confusão na ética humana com relação ao nível no qual o altruísmo é desejável – família, nação, raça, espécie, ou todas as coisas vivas – está refletida numa confusão paralelana Biologia com relação ao nível no qual o altruísmo deve ser esperado segundo a teoria da evolução. Até mesmo o adepto da seleção de grupo não se admiraria de encontrar membros de grupos rivais sendo desagradáveis uns com os outros: desta forma, como membros de um sindicato ou soldados, eles estão favorecendo seu próprio grupo na luta por recursos limitados. Mas, então, vale à pena perguntar como o adepto da seleção de grupo decide qual nível é o importante. Se a seleção se dá entre grupos dentro de uma espécie e entre espécies, por que não deveria ela se dar também entre agrupamentos maiores? As espécies estão reunidas em gêneros, os gêneros em ordens e as ordens em classes. Os leões e os antílopes são ambos membros da classe Mammalia, assim como nós. Não deveríamos então esperar que leões se abstivessem de matar antílopes, "para o bem dos mamíferos"? Certamente eles deveriam, em vez disto, caçar pássaros ou répteis, a fim de evitar a extinção da classe. Mas, então, o que se diria da necessidade de perpetuar todo o filo dos vertebrados?

É fácil para mim argumentar pelo reductio ad absurdum e indicar as dificuldades da teoria de seleção de grupo, mas a existência aparente do altruísmo individual ainda tem que ser explicada. Ardrey chega a dizer que a seleção de grupo é a única explicação possível para um comportamento tal como o de "saltitamento" das gazelas Thomson. Este salto vigoroso e conspícuo em frente de um predador é análogo ao grito de alarme das aves no sentido de que ele parece avisar os companheiros do perigo ao mesmo tempo que aparentemente chama a atenção do predador para o próprio animal que salta. Temos a responsabilidade de explicar este comportamento das gazelas e todos os fenômenos semelhantes. Considerarei isto em capítulos posteriores.

Antes disto devo defender minha crença de que a melhor maneira de se encarar a evolução é em termos de seleção ocorrendo no nível mais baixo de todos. Nesta crença fui fortemente influenciado pelo grande livro de G. C. Williams, Adaptation and Natural Selection. A ideia central que usarei foi pressagiada por A. Weismann em época anterior à descoberta do gene, no fim do século passado – sua doutrina da "continuidade do plasma germinativo". Sustentarei que a unidade fundamental da seleção e, portanto, do interesse próprio, não é a espécie, nem o grupo, nem mesmo, a rigor, o indivíduo – é o gene. a unidade da hereditariedade. Para alguns biologistas isto talvez pareça, inicialmente, uma posição exagerada. Espero que quando eles virem ao que me refiro concordarão que a posição, é, no fundo, ortodoxa, embora expressada de forma não habitual. O argumento leva tempo para ser desenvolvido e devemos começar pelo começo, com a origem da própria vida.