SERENIDADE do livro O VAZIO DA MAQUINA 2 de ANDRÉ CANCIAN
A vida é algo extremamente simples, muito mais do que supomos, mais do que estamos dispostos a aceitar, quase dolorosamente óbvio. Contudo, fácil de ser compreendido, não de ser vivido. A dificuldade central consiste em suportá-la, pois se trata essencialmente de uma luta inútil pela existência, não de um passeio turístico inútil. Naturalmente, a vida nunca será justificável, isto é, preferível ao nada. Porém, quando a complicamos desnecessariamente, seja com ilusões, ignorância ou mera estupidez, distanciamo-nos da única coisa que, ao menos, pode torná-la suportável, a serenidade. Com isso não nos referimos ao pacifismo, à passividade, à humildade. A inação nascida do protesto nos amargura; a hesitação nascida da covardia nos torna indigentes; a paciência nascida da impotência nos torna ressentidos. Abrir mão da vida e permanecer vivo aguardando justiça não passa de outro modo de tornar-se um desgraçado. Começamos a espumar porque acumulamos saliva demais e não sabemos em quem cuspir: então engolimos nosso ódio e sorrimos. Escarramos para dentro. Abandonar essa revolta infantil é o primeiro passo para que nossa existência tenha qualquer perspectiva de decência.
Para nossos propósitos, serenidade significa conformar-se com a existência num sentido puramente objetivo, ou seja, não pedir da vida aquilo que não pode dar. Olhar-se no espelho e saber que, apesar de nossos sonhos mais grandiosos, isso é tudo o que a vida nos reserva, realmente tudo. Levantar-se pela manhã perfeitamente cônscio de que viver é engajar-se em atividades sem sentido, e só. Não se trata de conformismo, mas de proteger-se daquilo que nos torna ansiosos e insatisfeitos com o presente. Sem dúvida, sedativos podem nos dar essa mesma serenidade, o sono pode nos dar paz por algumas horas, mas somente a compreensão clara da nulidade da vida nos fará sentir que não estamos perdendo tempo ao conduzir uma existência sem grandes ambições, como um mero passatempo. Isso porque, ao longo de nossas vidas, não fará diferença alguma se sofremos ou não, se nos esforçamos ou não — nós nunca seremos recompensados ou punidos em nenhum sentido para além daquilo que conhecemos como estar vivo, como presente imediato. Quando a vida é levada muito a sério, sofremos em função de crenças perfeitamente arbitrárias — um empreendimento pelo qual nunca seremos recompensados, pois em termos de vivência, a vida é um fim em si mesmo. Então, se a vida é meramente tempo livre, faz muito mais sentido vê-la como um passatempo, e governá-la como tal, que nos angustiarmos com torturas gratuitas que impomos a nós mesmos por motivos que não dizem nada.
Se nossa vida fosse uma conta bancária, nunca teríamos dinheiro algum. Nascemos Nascemos com os bolsos vazios e, ao longo da existência, apenas nos endividamos. O saldo negativo torna-se tanto maior quanto mais ambições e expectativas tivermos. Mesmo supondo o maior lucro, somente seremos capazes de quitar nossa infelicidade, nunca comprar felicidade. Nessa ótica, o melhor tipo de investimento que podemos fazer são aqueles que visam assegurar a estabilidade de nossas contas, para que o prejuízo não cresça exponencialmente. Tudo o que acumularmos além do necessário será tomado pela vida sem que possamos tirar proveito algum, como escravos que não têm direito à posse de qualquer bem. Portanto, perdemos tempo ao lutar pela conquista daquilo de que nunca poderemos desfrutar, e não o contrário. Quando tudo o que podemos acumular são dores, a serenidade está em saber que, quando não temos nada, nem dores nem alegrias, o melhor que podemos fazer é continuar assim.
Para saber o que podemos ou não esperar da vida, temos de compreendê-la como realmente é, aceitando-a integralmente, sem reservas. Sendo que somos a própria vida, somente a compreensão desta pode ser um ponto de partida seguro sobre como podemos nos guiar. Quando nos norteamos por sonhos irreais, condenamo-nos ao fracasso real — e sofreremos sem ao menos a dignidade de entender o porquê. Nesse sentido, devemos cultivar o conhecimento sobre o mundo e a vida não para alcançar sonhos positivos, mas apenas para que consigamos manter nossas dívidas tão pequenas quanto possível. Isso é tudo o que o conhecimento pode fazer por nós. Se o buscamos com qualquer outro propósito, nos iludimos, já que ele é tão incapaz de nos dar a felicidade como qualquer outro empreendimento humano. Entretanto, é a única ferramenta que pode nos tornar eficientes em administrar nossos prejuízos, minimizá-los com inteligência.
Somente a partir dessa postura torna-se possível concretizar a serenidade, sem desperdiçar nossas limitadas energias em investidas quixotescas. Cansados demais, não temos paz, apenas exaustão: calamo-nos pelo esgotamento de nossas forças, pela rouquidão de nossas vozes, não por havermos alcançado um estado sustentável. Assim que recobrarmos nossas forças, voltaremos a levantar nossas espadas contra inimigos imaginários, gastando toda a energia em ilusões. Como a ignorância não nos permite ver o erro, sem instrução, equivocamo-nos facilmente, distanciamo-nos do entendimento de nossa verdadeira condição. Passamos a explicar nosso sofrimento a partir de crenças em mundos paralelos, intervenções, destinos, energias misteriosas, ou seja, realidades morais. Inventamos crenças por vaidade, para que nossa desgraça tenha sentido e valha algo, para que nos sintamos confortados perante nossa própria incompetência.
Se nossas crenças estão num além no qual tudo é alegria, os pés continuam na terra, e é nela que os calos doem enquanto os negamos como uma condição temporária, como um preço a ser pago por uma recompensa que nunca receberemos. Em regra, tais crenças são eufemismos para irreflexão, nascem apenas da covardia, escondem algo que não queremos confessar, visto que não as seguimos, apenas as empregamos para justificar, para dar sentido àquilo que nos ocorre por acaso. Esse conformismo ignorante e supersticioso é o que consola os que não entendem o mundo em que estão. Tais desvarios são métodos ineficientes para se levar uma existência suportável, pois nos levam a explicá-la segundo regras que não nos dizem respeito. Nessa situação, como interpretamos o mundo a partir de uma ótica arbitrária, nossa ação passa a ser não uma contradição, mas pura irrelevância, enquanto nos ignoramos completamente. Além disso, em nossas explicações delirantes sobre nossos problemas — cujas causas imputamos às nossas fantasias —, recorremos sempre às hipóteses mais rebuscadas e pomposas. Temos piolhos porque somos pecadores, porque precisamos evoluir espiritualmente, porque esse é o nosso karma: tudo precisa ser uma explicação grandiosa para uma dor insignificante. Nunca temos piolhos porque há piolhos em nossa cabeça. Até a coceira precisa de um sentido imaterial. Compramos a ilusão de ser super-heróis apenas para que a coceira pareça algo justificável: cresce a dívida.
Se quisermos encontrar explicações que funcionem para calos e piolhos reais, nosso conhecimento sobre o mundo deve ser científico; quanto a isso não há dúvida. Todavia, como a ciência não se ocupa da descrição de indivíduos particulares, nosso entendimento sobre nós mesmos deve ser alcançado por esforço próprio, numa pesquisa individual. A partir de conhecimentos gerais, tornamo-nos nosso próprio objeto de estudo específico. Mesmo que pareça um atalho sedutor, os alicerces dessa compreensão não devem ser buscados diretamente através da introspecção, mas da descrição e observação objetiva de nossos corpos e processos biológicos. Ninguém jamais teria apreendido o funcionamento do cérebro através da meditação, como quem vira os olhos para dentro. Aqueles que se valeram apenas da interioridade para explicar o mundo e a si próprios, sem nenhuma instrução a respeito da realidade física envolvida, nunca ultrapassaram lengalengas infantis e misticismos rasteiros. Isso porque a introspecção não explica coisa alguma, não nos dá acesso à realidade por detrás de nossos fenômenos mentais. Quando bem empregada, ela somente nos permite distingui-los com alguma clareza. Portanto, o alicerce de nosso conhecimento não pode estar nela, pois esta não é o alicerce de nossa existência objetiva. Enquanto máquinas que somos, nosso autoconhecimento só pode ser alcançado pela observação de fatos mecânicos.
Para tal fim, comumente se emprega a psicologia. Todavia, enquanto esta se negar a submeter-se às condições impostas pela metodologia científica, não poderemos levá-la a sério como um campo de conhecimento confiável e imparcial. Muitas de suas pesquisas são interessantes, mas boiam numa vagueza subjetiva circular que não consegue situar-se objetivamente com clareza. Com o mesmo autismo dos sistemas filosóficos, a psicologia parte de si mesma numa tentativa de estabelecer e explicar o mundo idealmente. Demonstrar cientificamente uma teoria psicológica é tão infrutífero quanto provar a teoria filosófica do super-homem e sua vontade de potência. Há um abismo intransponível entre sua teoria e sua prática, e outro maior ainda entre sua teoria e a realidade. Ainda que funcione, não se sabe explicar como nem por que isso ocorre, ao menos não melhor que qualquer religião quando explica a cura de dependentes químicos em termos milagrosos. Numa abordagem realista, podemos descartar sua utilidade em poucas linhas.
Enxergamos basicamente duas formas distintas de psicologia, como o estudo da subjetividade humana, já que seu estudo da objetividade parece uma piada perto do que é feito por ciências adultas, como a biologia e a neurologia. Temos uma psicologia pré-científica e outra declaradamente metafísica. Compreendemos que o objeto de estudo é complexo, mas isso não é, como querem nos levar a crer, desculpa para fazer ciência ruim, não é motivo para aceitarmos os simplismos romantizados que denominam abordagens alternativas. Temos, por um lado, a boa psicologia, e dizemos boa apenas porque é honesta e admite suas limitações. Com seus modelos teóricos, faz generalizações grosseiras através de metáforas do que imagina serem os processos biológicos, que ficam nos bastidores do entendimento, morrendo de rir. Como desvirtua a realidade através da especulação, não consegue situar-se suficientemente bem para saber quando está com os pés no chão. É quase cega, mas olha na direção certa — busca os fatos e sabe reconhecer evidências quando, por acaso, as encontra. A psicologia ruim, por outro lado, é uma prostituta sifilítica. Faz muita coisa, qualquer coisa, menos conhecimento. Evasiva, ininteligível e impossível de ser relacionada com qualquer realidade, exceto os livros de metafísica de onde foi recortada, já que ainda acredita na separação entre mente e corpo. Isso pode ser inferido pela sua afirmação de que o cérebro não se reduz a um fenômeno material. Absolutamente ridícula em sua pretensão de explicar o subjetivo pelo mais subjetivo ainda — ela não tem olhos, não tem ouvidos, não tem corpo, não tem rumo, não pode sequer traçar um objetivo claro. Está parada no tempo como uma mitologia. Desprendida do materialismo, defende seu direito de existir à parte da realidade, como quem quer ter seu valor demonstrado pelas suas boas ações: um teatrinho cristão que afronta diretamente a inteligência de qualquer indivíduo que possua um grão de sensatez. Como qualquer charlatão, tem apenas uma boca enorme e carnuda, uma voz macia e envolvente que despeja disparates por todos os cantos. Como uma religião, seu objetivo não é conhecer, mas convencer e inspirar, fazer caridade.
Em ambos os casos, a prática dificilmente ultrapassa a eficiência do placebo, visto que suas teorias não estão baseadas em fatos comprováveis, mas em tentativa-e-erro triplo-cego, cujos resultados são alinhavados com uma especulação quase filosófica que emprega termos científicos por pedantismo. Como não sabem explicar o que estão fazendo dentro da cabeça do paciente, que muitas vezes torna-se vítima, deveriam simplesmente admitir que não têm competência para realizar intervenções eficientes. São apenas uma versão laica de padres conselheiros, cada qual com sua corrente pessoal igualmente supersticiosa. Na prática, em vez de nos fornecer uma solução prática, como qualquer profissional competente faria, como nós próprios faríamos, partem para a abordagem cristã de que, se nossa personalidade nos escandaliza, mesmo que em segredo — um que só eles conhecem e nunca nos contam —, devemos arrancá-la fora, e para tal fim aplicam em seus pacientes uma lavagem cerebral a base de lengalengas. Como os objetivos são predeterminados em função do que é socialmente aceitável e ético, limitam-se à evangelização de seus clientes com a metafísica indigesta do otimismo aprendido, que infecta essa área de ponta a ponta, se é que tem alguma. Assim, para não pensar no pior, digamos apenas que são profissionais que vivem do clareamento de ovelhas com receitas caseiras de água oxigenada. Seu objetivo não é alcançar a verdade, mas a saúde, ou seja, tornar os indivíduos sadios e aptos a viver em sociedade e a servi-la, mesmo que para isso seja necessário mentir e omitir descaradamente. Talvez a primeira tenha algum futuro se parar de andar em círculos e começar a seguir os passos da psiquiatria, que teve a prudência de conhecer os fatos antes de partir à prática. Porém, como ainda é adolescente e sonhadora, recusa-se a seguir modelos: muito precipitada, incipiente e supersticiosa para ser ciência. No mais, por estar infectada de valores por todos os cantos, não consegue afirmar qualquer fato sem que isso seja uma opinião assumidamente parcial. Não serve para nenhum propósito porque insiste em ser tida como um propósito em si. Constitui uma compreensão da realidade fechada em si mesma que não consegue conversar com nenhuma outra ciência decentemente. Quer ser ao mesmo tempo conhecimento objetivo e sabedoria de vida, mas não passa de ciência vendida, corrompida pela moralidade.
Apenas a compreensão científica de nós mesmos nos dá acesso às verdadeiras variáveis envolvidas em nossas vidas, que são constantes. A interioridade, apesar de imediata, é sempre cambiante e, muitas vezes, enganosa, pois nosso humor varia constantemente conforme nossas necessidades, que estão determinadas em função de seu papel biológico, não de nossas crenças a esse respeito. Não obstante, é dentro de nós mesmos que estamos, significando que a interioridade deve ser vista não como o meio, mas como o alvo, como o fenômeno subjetivo que desejamos administrar eficazmente através da compreensão da realidade objetiva que a faz nascer. Assim, quando buscamos conhecer e influenciar a realidade física de nossas mentes, nossa subjetividade servirá apenas como parâmetro para indicar se estamos ou não na direção certa. Ademais, se quisermos nos entender fisicamente, enquanto máquinas subjetivas, deixemos a moral bem longe de nós, de preferência trancada em alguma convenção social, que é seu habitat natural. Buscamos ciência objetiva, fatos amorais, não cursos de etiqueta transcendental ou de boas maneiras absolutas. Sabemos quais são nossos interesses, e não queremos nos comprometer com pontos de vista religiosos ou ideológicos no processo de nos entender.
Assim, partindo da honestidade de nos valermos de nosso conhecimento sem reservas, tornamo-nos livres para fazer tudo o que quisermos de nossas vidas. Afirmamos tudo porque, com tal consciência, sabemos também quais são nossas verdadeiras possibilidades, e passamos a ter diante de nós apenas as escolhas reais, que podem ser levadas adiante com os pés no chão. Desde que o exercício da reflexão tenha nos tornado aptos ao pensamento independente, saberemos manejar tais conhecimentos sem nenhuma dificuldade, sem preconceitos. Entretanto, caso tenhamos apenas estudado ciência como quem coleciona fatos isolados e curiosos, não saberemos que fim lhes dar. Precisamos de reflexão, precisamos de filosofia para guiar a ciência. Sabemos que a ciência, sozinha, não tem olhos; que a filosofia, sozinha, não tem pernas. A filosofia precisa ser informada pela ciência; a ciência precisa ser norteada pela filosofia. Ambas as coisas, uma vez unidas, podem nos levar aonde quisermos, pois colocam o poder do conhecimento em nossas mãos.
Vejamos algumas situações práticas para ilustrar o que queremos dizer. Se, por exemplo, tivermos uma crise de pânico, isso não deve ser interpretado em termos de culpa, trauma, fraqueza, fracasso, aprendizado, punição, dever, destino etc., que são realidades que existem apenas em nossas mentes, assim como o próprio pânico. Devemos interpretar tal fato em termos fisiológicos. Sabemos que o pânico pode ter causas subjetivas ou objetivas, como nosso medo subjetivo de cães ou o consumo excessivo de café. Sua explicação, entretanto, é sempre objetiva, e deve ser buscada por detrás de nossa subjetividade. O que comumente se encontra? Hormônios de estresse, ou seja, substâncias químicas liberadas em reação a alguma circunstância que nos ameace. Consumimos cafeína apenas para simular tal ameaça, já que isso serve para que permaneçamos acordados quando só temos coisas tediosas a fazer. Seja qual for o caso, a realidade física envolvida é sempre a mesma. Não há fantasmas subjetivos que emprestem qualquer caráter qualitativo a tal sensação. O pânico causado por café pode ser tão aflitivo quanto o causado por uma ameaça física real. A grandiosa ficção explicativa que elaboramos sobre causas pessoais que justificam e dão sentido a tal pânico no fundo não explica coisa alguma, apenas nos afunda num oceano de interpretações subjetivas e significados arbitrários que nunca poderão ser demonstrados porque não existem efetivamente: pânico não tem sentido, tem apenas realidade. Perdemo-nos numa lógica circular quando não admitimos que a subjetividade sempre parte da objetividade, nunca o contrário. As explicações devem ser procuradas lá, concretamente.
Pois então, se sentimos pânico ao atravessar uma rua escura ou se a atravessamos sem qualquer receio, que diferença faz? Se sentirmos medo isso significa que atravessá-la é errado? Ora, sentir medo não faz diferença alguma quanto ao que efetivamente há nessa rua escura. A sensação, em si mesma, não diz nada: o medo não torna a rua boa ou má, não torna a travessia certa ou errada. Medo é apenas uma sensação física, como beber café. Devemos entender que o medo é somente um sintoma subjetivo dos mecanismos objetivos, isto é, neurais, com que nossos cérebros estão equipados para lidar com uma realidade cheia de perigos, muitos deles imaginários, outros tantos reais e insuspeitos. O mecanismo de alerta em funcionamento não é risco em si — não é o perigo que nos deixa em pânico, mas a presença de adrenalina em nossa corrente sanguínea. Haja ou não uma causa razoável para que sintamos pânico, isso dependerá apenas de nossa saúde mental, e não altera a realidade da rua; os processos químicos e neurais envolvidos são os mesmos, seja o perigo real ou imaginário.
Por sua própria evolução enquanto uma ferramenta em prol da sobrevivência, nossa mente está arquitetada para reagir coerentemente em função da realidade, mas isso nem sempre acontece, ou nem sempre é desejável. Passa a ser nosso interesse pessoal entendê-la racionalmente e intervir para corrigir aquilo que consideramos uma reação inadequada. Quais armas teríamos em mãos nesse caso? Que estímulos poderíamos utilizar para que nosso cérebro cesse o estado de alerta geral? Poderíamos recorrer a ansiolíticos, como uma primeira opção, ou a bebidas alcoólicas. Correr algumas centenas de metros, por sua vez, também funcionará, resultando na liberação de endorfinas. Talvez um banho gelado resolva. No fundo, tanto faz, desde que funcione. O que não devemos, entretanto, é acreditar que esse pânico, em si mesmo, seja uma realidade objetiva, que o mundo esteja efetivamente nos encurralando, que seja necessária uma ação drástica e imediata, mesmo que não vejamos perigo algum diante de nós, pois isso nos torna cegos e inconsequentes. Se a aflição que sentimos fosse algo objetivo, não apenas nós, mas a humanidade toda estaria rangendo os dentes. Essa ilustração serve para que consigamos pensar nossas sensações como algo real e arbitrário, não como uma necessidade, como um imperativo moral que sejamos obrigados a suportar resignadamente como se nele houvesse algum sentido especial; sofrer por acaso não nos ensina nada.
Noutro exemplo, quando um serial killer não sente remorso ao matar uma pessoa, isso não deve ser entendido como uma maldade, como um erro, nem mesmo como uma doença. Seu cérebro simplesmente funciona dessa forma, assim como o nosso funciona de outra. Nós não somos bons assim como ele não é mau. Nenhum dos dois tem escolha quanto a isso, ao menos não mais que um computador previamente programado para comportar-se de tal forma. Admitamos ou não, somos todos assassinos potenciais, e concretizar tal possibilidade depende apenas dos motivos que julgamos suficientemente bons. Sabemos que o assassinato não é errado em si mesmo, do contrário assassinatos nunca ocorreriam. Sabemos que o certo e o errado são questões sociais, não físicas, e também que não faz sentido tentar explicar o comportamento objetivo de um serial killer com base em acusações morais. O fato de ele não se sentir ansioso por assassinar outra pessoa só prova que seu cérebro não reage a esse estímulo como a maioria dos indivíduos. Resta-nos apenas estudar o comportamento físico de seu cérebro para entender o que o leva a matar em circunstâncias nas quais a maioria optaria por não fazê-lo. Não há sentido em tratá-lo como um doente mental, pois sabe muito bem o que está fazendo. Nós matamos leões por diversão e isso não nos torna débeis mentais. Ele mata seres humanos por diversão, e isso é tudo. Devemos suspender quaisquer julgamentos morais quando nosso interesse é compreender o fenômeno objetivamente.
Como vemos, a ciência é como uma bússola: aponta várias direções, mas não nos diz aonde devemos ir. Serve apenas para nos orientar, para evitar que nos percamos num mar de causas imaginárias e subjetivas que só existem na fantasia particular que criamos com nossa interpretação pessoal da realidade. Vendo o mundo em termos científicos, ao menos nunca nos encontraremos completamente perdidos e desorientados — onde quer que estejamos, nunca estaremos muito longe da verdade. Não obstante, devemos entender que, ao estudar ciência, além de estarmos buscando conhecimentos gerais para problemas específicos e pessoais, tais conhecimentos também não nos dirão nada a respeito dos objetivos que devemos visar. Como servem para quaisquer propósitos, dar-lhes uma finalidade, uma aplicação coerente é uma tarefa individual. Podemos usá-los como bem entendermos, seja qual for nosso ponto de vista, e é esse o motivo pelo qual vemos a ciência como algo tão valioso. Sabemos que a utilidade da ciência é universal, porém, neste momento, nosso interesse é aplicá-la para sustentar a postura segundo a qual a serenidade é o estado mais desejável que podemos buscar em vida. As explicações dadas até agora serviram para delinear com clareza nosso ponto de partida. Dediquemos, pois, o restante de nossas observações à finalidade de justificar nosso ponto de chegada.
Partamos do básico. A vida é um sistema que existe apenas em função de sua própria perpetuação, tendo desenvolvido infindáveis mecanismos com esse único propósito. Tudo o que sentimos e pensamos nasceu como um meio para tal fim. Contudo, nós, enquanto indivíduos, não temos nada a ganhar com isso, apenas desassossego. A seta de nossas vidas individuais aponta para o futuro, para a perpetuação, não para nós mesmos. Nós nunca seremos felizes porque a felicidade é um engodo, um meio para nossa perpetuação, não a finalidade de nossas vidas. Isso explica por que somos naturalmente infelizes, e por que nos tornamos ainda mais quando buscamos a felicidade. Não apenas à felicidade, tal explicação estende-se a todos os aspectos de nossas vidas, a todos os nossos sonhos de realização: nenhum deles nos satisfará, pois ignoram que a única finalidade de nossa existência é a eternidade genética. Assim sendo, quando acreditamos na vida, estamos nos submetendo a um sistema que, além de cego, não nos tem como fim, como prioridade, mas como um meio irrelevante, uma tentativa gratuita. Nessa ótica, nossos instintos são como dogmas que fundamentam uma religião biológica chamada vida. Nós, ao segui-la e servi-la, nos colocamos a serviço de uma tarefa inútil orquestrada pelo acaso.
Sabemos que, por um lado, buscamos instintivamente uma felicidade impossível. Por outro, não podemos modificar nossas necessidades, intervir diretamente em nossa própria natureza através da racionalidade. Vemo-nos pegos numa cilada. Sendo que não podemos nos satisfazer nem nos contradizer plenamente, qual é a saída? Blefar. Negar-se a trabalhar cegamente em função desse despropósito natural. Talvez pareça, mas nisso não há problema algum, já que a vida em si mesma não tem como saber que estamos trapaceando. Vejamos o que pode ser dito para ilustrar tal postura. Quando sentimos fome, precisamos comer? Não necessariamente. Podemos comer ou usar supressores de apetite. Quando sentimos desejo sexual, podemos satisfazê-lo sem que isso envolva filhos. Quando nossa autoestima está baixa, podemos recorrer a narcóticos, a atividades físicas, à arte, no lugar de conquistas sociais. Dentro disso tudo, fica a nosso critério pinçar o que nos parecer mais viável. Assim, em vez de cultivar sonhos grandiosos e impossíveis, podemos desenvolver soluções práticas, passar a perna em nossos instintos, dizendo o que querem ouvir, mas sem seguir seu script evolutivo. Não precisamos acreditar neles, apenas entendê-los e enganá-los bem o suficiente para que não nos incomodem, para que se deem por satisfeitos. Quando a vida nos põe à prova, temos a escolha de enfrentar seus desafios ou simplesmente trapacear — mudam os meios, mas a recompensa é a mesma: uma satisfação temporária, uma dor que se cala.
Proceder desse modo não se trata de revolta, mas de sagacidade. Se a vida nunca cumprirá sua promessa de felicidade, por que deveríamos continuar trabalhando honestamente? Sabemos que é uma perda de tempo ingênua. Se podemos simplesmente deixar nossos paletós nas cadeiras e continuar recebendo salários, por que não fazê-lo? No tocante à biologia, não há obrigações, tampouco fiscalização quanto aos meios, apenas quanto aos fins. No mais, se somos canalhas cínicos uns com os outros, por que não ser também com nós mesmos? Os princípios são os mesmos, e os benefícios, muito maiores. Há apenas um porém nessa questão: nossa lealdade cega à vida. Acreditamos que nosso valor pessoal diz respeito à vida em si mesma, não às nossas intenções. Nossa resposta para isso é a seguinte: paspalhice. Tal crença no valor da vida reduz-se a um apelo à natureza motivado por nossa covardia em tomar a vida em nossas próprias mãos e vivê-la em nossos próprios termos. Temos medo de viver segundo aquilo que efetivamente sabemos. Medo de que, entretanto? Ora, a vida é nossa, e faremos dela o que bem entendermos, sem nos deixarmos deter por irrelevâncias morais. Ainda assim, é bem verdade que trair a vida exige algum domínio na arte de ser patife, mas tal habilidade nos é garantida sossegadamente pelo contato com a sociedade. Então, se quisermos exprimir nossa postura de forma mais concisa, mais insolente, eis a sentença: queremos paz; logo, a vida não vale nada.
Somente quando nos demitimos do emprego que a vida deu para nossos corpos sentimos o alívio de não ser mais um serviçal do acaso, ao menos não em período integral. A lucidez nos dá acesso ao único recurso que nos permite essa aposentadoria antecipada: a negação da vida, ou seja, a rejeição enfática e completa de seu valor. Temos, nessa situação, duas escolhas: o suicídio ou a vida parasitária e farsante. A primeira opção nos dará a serenidade perfeita; a segunda, a única possível em vida. Assim, ao negar a vida, alcançamos não a quietude de quem está em coma, mas de quem está de folga, como quem tira férias de si mesmo. Já não há mais obrigações. A vida, em vez de trabalho, agora é passatempo. Basta manter o paletó na cadeira dos instintos, e poderemos viver em paz, sem correrias para chegar a lugar nenhum. Claro que, de início, essa parece uma postura autodestrutiva, mas é exatamente o oposto. Se, aparentemente, somos hostis para com a vida e seus objetivos cegos, não é por falta de amor-próprio; muito pelo contrário. Buscamos exatamente a diminuição de nosso prejuízo, negamo-la por interesse pessoal, como quem tem pela vida os olhos que ela não pode ter por nós. Trata-se de um gesto de profunda consideração por si mesmo. Não apenas somos conscientes, mas também sabemos o que queremos, e não perdemos tempo nos fazendo de vítimas de um destino que sabemos ser cego. Queremos paz, mas não esperamos que esta caia do céu do sonhar — tomamos da vida o que dela queremos. Sabemos que seguir as regras da vida nos conduz apenas à perpetuação, então traçamos nossos próprios planos. Nós nos daremos aquilo que a vida nunca nos daria. Nossa defesa contra a amoralidade da vida consiste em nos tornarmos imorais perante nós mesmos. Essa é a única possibilidade sensata que está ao nosso alcance. Precisamos aprender esse cinismo para colocar a vida em nosso favor, pois não é sensato deixá-la ao sabor do acaso. No mais, a própria vida concordaria conosco se tivesse consciência do que faz; contudo, se não tem, façamos com que tenha usando a nossa própria.
Tais palavras ilustram suficientemente bem nossa ideia central. Nesse sentido, como se percebe, foi apenas a compreensão científica e objetiva da vida que nos permitiu entender, através do estudo de sua evolução biológica, que estamos presos a essa situação subjetiva lamentável. Isso nos livra de quaisquer dúvidas sobre a utilidade do conhecimento científico, visto que foi a única ferramenta que abriu nossos olhos para nos vermos como um joguete do acaso. Até então, éramos completamente ignorantes quanto aos propósitos que nos movem. A maioria prefere continuar assim, mas isso não é um argumento, apenas algo triste.
Como estamos lidando com o maior tabu da existência humana, aquilo que carinhosamente se denomina santidade da vida, torna-se compreensível por que devamos evitar áreas de conhecimento infectadas pela moralidade: elas pressupõem o valor da vida como algo acima de qualquer suspeita, consideram doentes e criminosos os que não o aceitam, embora não possam demonstrá-lo racionalmente, visto que se trata de um dogma ingênuo, de uma convenção segundo a qual o instinto de sobrevivência é o juiz último, o critério da verdade. Em nossa sociedade, a mentira do valor da vida é levada adiante cegamente até que suas consequências se mostrem tão revoltantes que seus seguidores sejam obrigados a colocá-la de lado em favor do bom senso mais elementar. Apenas aceitam que continuar vivo é uma opção, uma escolha, quando as circunstâncias são monstruosamente insustentáveis e contraditórias. Porém, nas demais situações, nosso dever é aceitar como lei esse blablablá ignorante — e nós aceitamos. Não apenas submissos, somos também incontornavelmente dogmáticos nesse assunto. Não estamos dispostos a discutir o valor da vida sob hipótese alguma. Não podemos nos matar porque não podemos nos matar. Por que não? Porque é errado. Por que é errado? Porque sim. Eis tudo.
O suicídio nunca é aceito como uma opção justificável, senão em último caso: um caso, entre todas as mentiras que cultivamos, que nos permite vislumbrar a verdade. Investiguemo-lo. Quando o corpo está evidentemente condenado, sem perspectivas de melhora, podre por dentro e por fora, quando todo respiro é uma agonia também aos que observam, apenas então o suicídio se torna uma opção moral. Agora podemos morrer. Por motivos óbvios, nesse caso o suicídio recebe outro nome, eutanásia, i.e. morte fácil. A mudança de nome é necessária porque, do ponto de vista moral, o suicídio, a morte voluntária, é considerada uma cacotanásia — uma morte terrível e cheia de angústia, que não temos direito de infligir a nós mesmos. Pois bem, só nesse caso permite-se a morte voluntária. Em qualquer outra circunstância, matar-se é tão inaceitável quanto matar outrem, ao menos do ponto de vista social. Isso porque, quando se tem saúde, o desejo de morrer é vetado não como um crime, mas como uma falta de vergonha, uma libertinagem. Equivale a um insulto, a uma gargalhada diante do que consideram o valor mais elevado.
Portanto, nessa ótica, o valor da vida é tido como algo que fica acima da liberdade do indivíduo, e pouco importam nossas razões: aquele que se mata sempre está fora de si, sempre está errado, mesmo que esteja certo. Assim reza nossa tradição, para a qual fazer sentido sempre foi uma questão marginal. Sabemos que discutir com fanáticos é inútil. Porém, se estivermos dispostos a ser no mínimo razoáveis, veremos como tal postura é absurda. Um grão de sensatez nos faz admitir que a proibição do suicídio é uma exigência pura e simplesmente gratuita. Trata-se de um preconceito que nos faz adotar uma postura dogmática e irracional em favor da vida, segundo a qual a sobrevivência impõe-se, também ao seu dono, como um dever absoluto. Não fosse esse um assunto tão sagrado, até veneno para ratos demonstraria que estamos com a razão: a vida não é um dever. A única objeção a essa verdade é a covardia, que nos foi instalada pela própria vida como um mecanismo de defesa de seus propósitos. Por isso a maioria dos indivíduos, diante de tais fatos, apenas chacoalha a cabeça e diz alguma banalidade, na tentativa de refutá-los emocionalmente com lugares-comuns. A covardia, entretanto, também é um modo de a vida defender-se da racionalidade. Quando afirmamos que, se a vida não pode ser defendida racionalmente, devemos defendê-la irracionalmente, isso só demonstra que a vida fez seu dever de casa, e sabe como nos convencer, nos enganar até nos assuntos mais abstratos, fazendo com que insistamos em permanecer escravos até nas poucas situações em que teríamos alguma escolha.
Tendo isso em mente, retomemos o assunto principal. Quando negamos o valor da vida, passamos a ver a eutanásia como um direito pessoal indiscutível, não porque o consideremos absoluto, mas porque não aceitamos que outrem nos diga quanto vale nossa vida — isso simplesmente não lhe diz respeito. Sabemos que, do ponto de vista físico, todo suicídio é uma eutanásia, uma morte fácil que dá fim a uma vida difícil, ou seja, um bom negócio. Trata-se de uma verdade incômoda que fazemos questão de afirmar, pois não nos envergonhamos de ser honestos, de pensar com independência. A ciência nos ensinou a confiar mais na realidade que no juízo moral de macacos interesseiros. Aprendemos essa prudência. Pois então, se vemos o suicídio como um direito básico, por que não veríamos a eubiosia, a vida fácil, como outro? A mesma lógica, a mesma realidade, se aplica. Justificamos o suicídio porque isso justifica também a eubiosia: não precisamos esperar que os demais nos concedam a liberdade de bocejar frente à existência. Não precisamos nos matar, mas podemos facilitar a vida sem nenhuma culpa, inclusive transgredindo as leis da biologia prática de nossos corpos. A coragem de nos guiarmos não por valores, princípios ou crenças, mas pelos fatos: isso é eubiosia, a arte do bem viver amoral.
Nossa premissa básica é a indiferença: estar vivo não é melhor que estar morto. Não afirmamos que estar morto é melhor porque reconhecemos que isso não passaria de um sofisma velhaco. Nada vale coisa alguma. Preferir a morte é, digamos, questão de bom gosto. Pois bem, assim como a morte, a vida não vale nada: trata-se de uma verdade autoevidente a qualquer mente pensante. Ainda assim, não conseguimos admiti-lo porque nossas vidas pressupõem a mentira de que viver é necessário e importante — sabe-se lá para que, entretanto, já que haver nascido nunca nos serviu para absolutamente nada. Sabemos que nossa condição nos impede de compreender a questão com clareza, com imparcialidade. A existência é como uma fonte de luz branca que, ao atravessar nossos olhos, é colorida pelo tom da vida: faz tudo aparentar uma nuance biológica que cria a ilusão de seu valor onipresente, como algo dado a priori. O fato, entretanto, é que a vida só tem um valor aparentemente irrefutável porque somos seres vivos, e essa ótica nos condiciona em todos os sentidos. Seu valor é um mero preconceito instintivo, e isso deveria ser aceito como uma obviedade pelo fato de que apenas a vida defende a si própria, e o restante da matéria inanimada permanece completamente indiferente aos nossos propósitos subjetivos.
Compreendendo que nossa morte não seria um prejuízo, tornamo-nos livres para morrer quando quisermos e também para viver como quisermos, inclusive contrariamente àquilo que nossa natureza nos impõe como deveres instintivos, àquilo que a sociedade nos impõe como deveres morais. Se o pior que pode acontecer é morrermos, não há nada de pior nisso. Porém, tampouco melhor — vemos a vida ser atravessada diametralmente por um incondicional tanto faz. Apenas quando sacudimos de nossos cérebros o dogma do valor da vida realmente sentimos o verdadeiro significado da liberdade, que é garantida objetivamente pelo vazio da existência. Somos livres exatamente pelo fato de não termos sentido nem valor — até a genética não passa de uma convenção biológica que aponta para a eternidade apenas inercialmente. Tal observação soa revoltante porque todos os nossos valores partem do pressuposto de que a vida seja a coisa mais importante do universo, especialmente a nossa. Temos, entretanto, todos os motivos para acreditar que não, temos todos os fatos necessários para saber, afirmar e provar que não é. A nulidade da vida é um fato, não uma hipótese.
Muitos tentam resolver essa questão afirmando que a vida é um valor em si mesmo, mas isso é lógica circular. Não há como conceber o que seria um valor em si mesmo, sem que houvesse um sujeito que o estabelecesse. A vida, nessa situação, toma a si própria como pressuposto num descarado circulus in demonstrando. Trata-se de algo tão inconcebível como uma porta boa em si mesma. Tal porta, assim como a vida, não se presta a qualquer finalidade, exceto existir e ser inerentemente boa: sua utilidade é existir inutilmente — revela-se finalmente o motivo pelo qual não podemos nos matar: a obrigação de levar adiante a inutilidade! Claro que contra tais fatos não há argumentos, mas desde sempre aprendemos a ignorá-los conforme a conveniência. Assim, em defesa desse preconceito — o direito à vida —, tornamo-nos irredutíveis como se o valor de nossas vidas estivesse estabelecido metafisicamente e acima de qualquer dúvida — acima de qualquer bala. Fizemos de nossas próprias vidas um dogma e nele fundamentamos o direito de permanecer míopes sem ser julgados por isso.
Pensemos um pouco mais a respeito e vejamos ao que isso nos conduz. Aceitamos o valor da vida como algo dado, que não precisa ser justificado, que não admitimos ser questionado. Qual é a consequência disso? Antropocentrismo. Uma miopia incurável, uma parcialidade inextirpável, um fanatismo brutal. Tornamo-nos a exata medida de todas as coisas, a divina criação do acaso, ocupando o centro de tudo. Tanto isso é verdade que, apenas por sermos seres humanos, temos a clara impressão de que o mundo existe apenas para nós, embora nenhuma outra espécie compartilhe conosco tal opinião. Imaginemos nosso planeta sem seres humanos: parece-nos algo insípido e sem sentido. Mesmo repleto de outros seres que, como nós, nascem, reproduzem-se, morrem, não os vemos como aquilo que realmente dá sentido ao planeta. Apenas nós somos a estrela sem a qual o mundo se torna negro. Somos a goiabada que recheia o rocambole da existência. Pois bem, o fato de não vermos no antropocentrismo um problema sério e digno de consideração — ainda mais, algo que deve ser refutado — é uma das principais causas de nunca encontrarmos o fio da meada, cultivando visões incoerentes a respeito do mundo que nunca nos permitirão viver em paz, visto que nunca levamos em consideração o filtro pelo qual o falseamos instintivamente. Para ilustrar como o antropocentrismo é ridículo e, ao mesmo tempo, como o levamos profundamente a sério, basta pensarmos que, assim como nós, homens, nos sentimos o centro bípede pensante do universo, em que a razão sobre duas pernas parece a capacidade mais gloriosa, as lesmas sentem suas mucosas como a glória rastejante da existência. Desprezamos as lesmas, mas elas também nos desprezam — e pelos mesmos motivos. Portanto, se nossa meta é abandonar crendices, ilusões que nos fazem sofrer por ser cegos, livremo-nos também do dogma biológico que nos impõe a crença no valor da vida, que nada mais é que uma superstição biológica.
Exatamente por nos considerarmos o centro de tudo, o abandono do antropocentrismo tem implicações drásticas em nossa visão de mundo, principalmente no que diz respeito à nossa relação com os demais indivíduos. Isso porque, guiados pela perspectiva egocêntrica da vida, nunca pensamos nos demais como seres semelhantes a nós. Pelo contrário, são apenas objetos que se movem: só nós existimos, e eles simplesmente acontecem enquanto estão diante de nós, depois voltam a ser abstrações, seres estatísticos e potenciais. A realidade dos demais é condicionada pela nossa — noutras palavras, somos crentes fanáticos de nós mesmos. Tal egocentrismo, sempre aplicado apenas a nós, parece natural, pois está em favor do instinto de sobrevivência. Porém, intelectualmente, é uma postura absurda. Em termos físicos, equivale a acreditar que, quando subimos uma escada, empurramos o mundo todo para baixo. Como pudemos deixar que passasse despercebido nosso louvor por esse deus ainda mais petulante e intrometido, que fala por nós não em nossos delírios, mas em nossos instintos? É fato que seguimos seus mandamentos constante e cegamente, e não apenas nos domingos: nessa ficção nós realmente acreditamos.
Vejamos como isso se reflete em nosso cotidiano. Quando, por exemplo, alguém esbarra em nós, numa reação autônoma do cérebro, viramo-nos já enfurecidos, despejamos pragas e amaldiçoamos mentalmente aquela massa orgânica descoordenada sem mesmo entender o que acabou de ocorrer. Sentimo-nos incomodados, e aquele objeto humano que esbarrou em nós deve ser odiado e, talvez, pagar por isso com sua integridade física. Cometeu o pecado de não prestar atenção no centro do universo que lhe passava ao lado. Ao nos desequilibrar, profanou o objeto mais sagrado. Desejamos uma eternidade de dor a essa raça pestilenta de objetos humanoides que só serve para nos fazer tropeçar. Contudo, talvez fosse apenas um indivíduo zonzo, com hipoglicemia, apressando-se para chegar ao hospital. Talvez um amigo antigo brincando conosco, para descobrir se ainda o reconhecemos. O mais provável é que seja apenas mais um indivíduo anônimo cuidando de sua vida anônima, como nós, e que ficou igualmente incomodado por esbarrar em um objeto que atrapalhou o centro do seu universo. Mesmo assim, entreolham-se com uma expressão penetrante, como dois semideuses que medem forças, esperando que o outro ceda e peça desculpas. Pensemos a respeito: por que realizamos esse ritual arrogante de demonstração de poder quando se trata de outro ser humano e, quando tropeçamos numa pedra, reagimos com indiferença? Porque ainda acreditamos que ser um macho dominante é o auge das conquistas sociais. Ao esbarrar em outro ser humano, não importa o que realmente ocorreu, ou seja, um prejuízo físico ínfimo. Interpretamos tal fato como uma afronta à nossa soberania.
Se recebêssemos no peito um brutal coice de cavalo, mancaríamos com uma expressão forçada, fazendo parecer que não se trata de algo sério. Diríamos: um coice? Ora, isso não é nada... Por que dar importância a um mero prejuízo físico? Não há sentido em indignar-se, pois o cavalo não tem culpa. Mas os humanos têm — e eis a prova de que perdemos o contato com a vida real: um esbarrão nos fere muito mais que um coice. Nunca enxergamos uns aos outros como vemos os demais animais. Somos supersticiosos em relação a outras pessoas, evidenciando com perfeita clareza nosso antropocentrismo. Assim, ao ver os demais com essa ótica distorcida, já não são homens o que vemos. Animais são animais. Homens não são homens. Apenas nós somos seres humanos: os demais são objetos humanos, formas antropomórficas autônomas, constituídas unicamente das opiniões que fazemos delas. Claro que, quando vemos apenas nós próprios como seres humanos, e os demais como objetos humanos, estamos delirando sozinhos num mundo particular instaurado pela religião biológica, no qual somos o deus. O universo inteiro nos orbita em sua irrelevância absoluta, em seu desprezível caráter de existir como não-eu. Apenas por tal razão nos engajamos em lutas pessoais mesquinhas e insignificantes. Em nome de superstições como honra e respeito, investimos tempo e esforço em ser reconhecidos por nossa bravura animal, por defender nosso território com unhas e dentes, acreditando se tratar do dever de toda besta civilizada. Por que razão batalharíamos pela conquista temporária de um monte de nada chamado propriedade, senão como resquício do ancestral instinto de dominância territorial? Percebamos ainda o fato de que nós realmente — do fundo de nossas almas — acreditamos que o planeta é nosso, apenas nosso.
Nascemos num teatro de dores e instintos, e pensamos que desempenhar esse papel com maestria é o mais importante. Nunca nos ocorre colocar nosso script em xeque. O bem-estar que se lasque: paz é a desculpa dos perdedores. Felicidade é pisar nos imbecis que duvidam que sejamos mil vezes melhores que toda a humanidade empilhada e elevada ao cubo. Gastamos nossas vidas todas olhando para fora, como quem vive coagido pela constante necessidade de causar impressão, de provar aos demais que apenas nós temos o direito de ser o centro. Assim, obcecados pelo impossível, vivemos para concretizar o universo pessoal que temos em nossas mentes, e para tal fim qualquer meio é válido, qualquer pena é justa. Para percebê-lo, perguntemo-nos: para que servem nossas metas, valores, princípios e sonhos pessoais? Para nada; são apenas um pretexto para agirmos como um animal qualquer: para lutar sem entender o porquê. Ainda assim, o homem é o único animal que se desculpa pelos seus instintos — eis o belo emprego que demos à nossa razão.
Vejamos mais algumas patetices. Quando, por exemplo, um indivíduo nos insulta, fazemos questão de nos empenhar em fazê-lo pagar amargamente por sua ousadia, pela insensatez de possuir uma opinião negativa sobre nós, a pessoa mais importante do universo. Mesmo que se trate da opinião mais imbecil proferida por um velho bêbado, mesmo que se trate de algo que sabemos ser falso e que, portanto, não se aplica a nós, damo-nos o tempo e a disposição para puni-lo severamente por isso, em defesa de nossa fé pessoal nos bons costumes de todo mamífero honrado. Claro que não gostamos de possuir uma má opinião de nós mesmos, porém, ainda que aquele insulto fosse uma verdade, por que deveríamos nos revoltar contra aquele que a diz? Faz um favor em nos informar a respeito de nós mesmos. Deveríamos, pelo contrário, revoltar-nos contra nós mesmos por sermos dignos de insultos bem fundamentados que provam nossa idiotice. Sua veracidade não deixará de valer mesmo que arranquemos todos os dentes da boca que o proferiu. Portanto, caso sejamos idiotas, a culpa não é daquele que nos lança isso à cara. Apenas descontamos no infeliz o fato de não sermos tão perfeitos quanto gostaríamos. No mais, indignar-se profundamente com fonemas pinguços lançados ao ar apenas demonstra que, se não éramos, acabamos de nos tornar merecedores de tal insulto.
Muitos concordam que, na maioria das vezes, ignorar insultos é algo sensato. Porém, quando recebemos um soco, é o fim do mundo: a sensatez que dá para o diabo. Nossa reação automática é vingá-lo com a morte do agressor. Queremos reduzi-lo a pó, principalmente quando houve testemunhas, pois não aceitamos ser vistos como covardes que não revidam toda patada que recebem. Assim, coagidos pela fúria ou pelo receio da vergonha pública, em geral ambos, partimos para uma vingança mil vezes mais cruel e custosa para lhe ensinar a lição de que não aceitamos desaforos: intrometeu-se com o mamífero errado e pagará amargamente. A não ser que se desculpe também publicamente, num gesto de submissão — coisa na qual não vemos qualquer paralelo possível com o mundo animal, pois isso tudo é puramente racional. Porém, se pensarmos esse homem como pensamos os demais animais, o mais sensato seria simplesmente ignorá-lo, como quem recebe coices de um asno. Preferimos, contudo, acreditar em nossa natureza vaidosa, nos valores convencionais estabelecidos socialmente em função dessa estupidez instintiva. Acreditamos que a adrenalina é um bom argumento, então partimos à luta. Colocamos nossa integridade física em risco em duelos de vaidades infladas, que resultarão apenas em ferimentos ainda mais severos. Se algum dos dois morrer no processo, sorte do defunto, pois acabou de ganhar um ingresso para fora dessa comédia. O vencedor fica satisfeito porque manteve sua reputação intacta, mesmo que seu corpo esteja em frangalhos. Desnecessário dizer que, sendo só mais um deles, é óbvio que sempre revidamos a agressão de outros animais com mais agressão, porém acreditamos que isso seja em defesa de coisas como honra pessoal e princípios morais, mesmo que esse comportamento defensivo seja virtualmente idêntico ao de um quadrúpede no cio. Ainda assim, se nos envolvemos em tais disputas, é realmente recomendável que acreditemos nessas paspalhices valorativas, pois a vitória, em si mesma, não nos trará qualquer vantagem. Então, em nome de um fim tão nobre e distinto quanto desdentar nossos adversários, arriscamos nossos dentes, nossos olhos, nossa saúde, nosso bem-estar. Tudo em nome do olho por olho, dente por dente. Lutamos para preservar a suposta honra de sermos os deuses de nosso mundo particular, pois seria indigno de alguém tão altivo relevar a afronta de um objeto. Por detrás das fachadas, tudo permanece tal e qual: a lei do mais forte. Aprender a dar as costas é uma virtude cujo valor não sabemos reconhecer; pouco importa quantas forem as lições.
Por mais que isso soe desagradável, compreendamos que não podemos mudar as pessoas, assim como não podemos mudar cães, no máximo adestrá-los. Não temos sequer tempo para impor respeito a todo aquele que não simpatize conosco. Assim, se quisermos seguir com nossas vidas em paz, evitando que sejam constantemente tumultuadas por banalidades, precisamos aceitar as pessoas como são, ou seja, todas egocêntricas, vaidosas e imbecis, como nós. Tratemo-las, pois não, com o desprezo que merecem, mas também compreendamos que defenderíamos as mesmas imbecilidades se estivéssemos em sua pele. Sorte nossa havermos nascido com cérebro, mas nem todos têm esse privilégio. Aquele que nasceu estúpido será sempre estúpido, e insulta os demais gratuitamente por isso. Naquela situação, não tem escolha, é sua natureza, seu dever. Fazê-lo calar-se não mudará sua opinião ou sua postura, pois em seu mundo particular ser idiota é bom, é o sentido último da existência. Forçá-lo a pagar, ao custo de nosso próprio bem-estar, pelo fato de haver nascido sem cérebro é insensatez de nossa parte. Quem possui gênio violento vive guiado por impulsos de agressividade. Assim como alguns argumentam, ele bate: é seu único modo de existir, sua única reação possível diante daquela situação que o desconcerta. Rebaixar-se ao nível de sua animalidade é comprar sua teoria, entrar no seu jogo e levar a vileza adiante, algo muito mais ridículo que ignorá-lo como a besta selvagem que, de fato, é. Pelo contrário, temos de pensá-lo como um ser humano que se comporta de modo bronco e grosseiro como que por uma necessidade íntima, um impulso natural e inevitável, a ser explicado, em última instância, como uma necessidade física. É assim que nós nos explicamos, é assim que explicamos todos os animais. Por que com os demais homens haveria de ser diferente? Quem se porta como um animal deve ser tratado como tal. Portanto, quando tratamos um homem diferentemente de qualquer outro animal que nos agredisse, isso apenas demonstra que ainda não compreendemos a natureza humana, pois revidar a agressão de um homem rude é o mesmo que morder um cão que avança contra nós, replicar um insulto é o mesmo que discutir com papagaios — um comportamento completamente despropositado e supersticioso, no qual ambos se deixam guiar pelo que possuem de mais baixo e primitivo em sua natureza.
Perdemos tempo em nos zangar com tais banalidades e, ainda mais, sofremos por considerá-las importantes, mais que o nosso próprio bem-estar. Quando colocamos nosso orgulho mamífero acima de tudo, o que isso nos diz a respeito de nós mesmos, senão que estamos nos condenando a uma vida ainda mais deplorável em nome de uma regra que nasceu do acaso? Durante todas as nossas vidas, abrimos mão de nossa serenidade para provar que estamos certos. Para quem, afinal, estamos tentando provar alguma coisa? Aos animais, aos ignorantes, aos estúpidos ou aos bêbados? Isso deve ser muito urgente, visto que lhes dedicamos toda a nossa atenção diante do motivo mais ínfimo. Se trocamos farpas como se isso fosse importante, não nos deveria causar espanto que nossa existência se torne farpada. Dormimos em camas de pregos porque os compramos, dia a dia, no trato com os demais. E o que conseguiremos com isso, senão construir uma cruz com as farpas e nela nos pregarmos? A glória gratuita de sermos crucificados por nossos próprios preconceitos — para isso não há palavras.
Em todo caso, é claro que devemos nos proteger dos imbecis, mas sem nos tornarmos imbecis no processo. Podemos nos tornar violentos caso necessário, mas isso não deve ser encarado como algo importante, ao menos não mais que esmagar um inseto azucrinante. Assim, se precisamos destruir a reputação de nosso oponente, partamos para uma calúnia mais eficiente que insultar sua progenitora. Se precisamos agredir alguém, deixemos os bons modos de lado e partamos àquilo que funciona, aplicando-lhe logo uma paulada cientificamente certeira — alvo neutralizado, assunto resolvido. Agora podemos gastar o tempo restante em algo menos estúpido que insultar um ao outro ou trocar bofetadas. Sabemos que nada se resolve com violência, porém tampouco com diálogo, menos ainda com acordos de paz. Isso não tem solução: engajar-se em lutas sem sentido está entranhado em nossa natureza. Não apenas é impossível agradar a gregos e a troianos, como é impossível agradar a qualquer lado. Amigos ou inimigos, todos se odeiam uniformemente. Lamentável que, mesmo depois de tanta ciência, ainda acreditamos que os homens não são animais comuns. Estamos condenados a nunca aprender essa lição.
Depois de tanta frustração em tentar demonstrar que somos o centro do universo, passamos a odiar o mundo por não nos reconhecer como tal. A humanidade toda está corrompida, merece uma morte lenta e degradante porque nos fez duvidar de nós mesmos. Assim, cheios de rancor, acalentamos a ideia de uma extinção iminente da humanidade, causada por sua própria estupidez — i.e. por não nos louvar. Enche-nos de esperança acreditar que nossa espécie, cedo ou tarde, acabará extinta, embora não saibamos explicar que diferença isso faria, já que estaríamos mortos também. Não consideramos que, mesmo com o holocausto nuclear mais apocalíptico, sempre restará alguma migalha de vida. A partir de uma mísera bactéria que sobreviva, será questão de tempo até que toda a cadeia alimentar evolua novamente, com outras espécies que tomarão nosso lugar e se empenharão ativamente em tornar o mundo um lugar cheio de dor, ou seja, farão o mesmo que nós, porém a partir de DNAs distintos, e não haverá diferença alguma no resultado final, pois o comportamento humano é somente um despropósito particular dentro do grande nonsense chamado vida. Portanto, haja ou não a extinção da humanidade, isso não fará diferença alguma, pois estamos limitados ao curto período de nossas vidas, depois nada. Toda essa ideia de apocalipse não faz sentido porque, no fundo, a questão é outra. Sentimo-nos indignos por existir quando não conseguimos realizar todos os sonhos que a natureza nos impôs. Então nos desesperamos, queremos explodir o mundo — ou esperamos que o mundo se exploda — apenas porque é impossível realizar nosso desvario pessoal de onipotência. Pois bem, agora percebamos o seguinte: queremos apenas que os homens morram, pois acreditamos somente no valor de nossa própria espécie. Como toda religião, o antropocentrismo ignora o valor das demais superstições cultivadas por espécies distintas, como o mosquitocentrismo. Damos importância apenas ao nosso universo de crenças umbigocêntricas, fora do qual tudo se reduz a uma grande nulidade — da qual sabemos não fazer parte por vários motivos invariavelmente parvos, a depender da mitologia dominante em nossa terra natal. Dizemos o contrário em livros didáticos, mas acreditamos que se trata de uma mera formalidade. Em segredo, excetuamos o nosso caso, o único verdadeiro, o único ao qual a realidade não se aplica. Parece que estudamos o mundo como quem não está nele.
Dia após dia, chafurdamos como micróbios na cabeça de um alfinete épico, acreditando que o universo todo está em jogo. Achamos óbvio que as abelhas são escravas de sua natureza ao levar néctar às colmeias, mas não percebemos que somos escravos de nossos instintos simiescos quando acumulamos dinheiro para impressionar vizinhos e fêmeas potenciais com carros sofisticados e outros luxos excêntricos que ostentamos orgulhosamente. Gastamos todo o nosso tempo nesse ritual de demonstração de poder, depois nos perguntamos por que a vida passou tão rapidamente. Perguntamo-nos por que sofremos tanto, por que nunca tivemos tempo para aproveitá-la. Ora, a resposta é simples: estávamos ocupados encenando. Somos inteligentes em algumas questões específicas relativas à tecnologia, porém, no tocante às nossas vidas em geral, permanecemos perfeitamente estúpidos, incapazes de usar o cérebro para alinhavar uma miserável conclusão que nos permita viver de um modo minimamente decente. Fazemos, por exemplo, todo o possível para sermos lembrados por nossos feitos, porém sem dar atenção ao insignificante detalhe de que tudo o que estamos vivendo será esquecido. Não importa o que façamos: seremos esquecidos, como foram todos os que vieram antes de nós. Somos seres efêmeros condenados não à liberdade, mas ao anonimato, seja no presente ou no futuro. Pois o que sabemos, hoje, sobre o que um grego médio pensava de si mesmo enquanto aparava sua barba? O mesmo que pensamos de nós mesmos: que, por algum motivo mirabolante, ficaremos para a história, e o trajeto de nossas vidas pessoais será contado de geração em geração até o fim dos tempos. Vivemos imersos em tais sandices, mas o fato é que não somos importantes agora, e menos ainda no futuro.
Não deveríamos, entretanto, nos revoltar diante disso, e sim abandonar a crença estúpida de que haja algo importante no fato de sermos homens, de que nossas vidas sejam dignas de ser lembradas por todo o sempre, pois não são. Apenas assim compreenderemos que não faz sentido preocupar-se com o fato de que nossas existências particulares se passarão sem grandes feitos, sem grandes demonstrações de eminência, pois por que deveríamos nos importar se nossa vida passa em branco aos demais, se aqueles aos quais encenamos nossa grandeza também são anônimos? Morrerão eles, morreremos nós, e tudo será esquecido como uma história sem valor que nem traças têm interesse em digerir. Em pouco tempo, tudo se perde — nós nos perderemos e seremos perdidos também. Nossas vidas e nossos feitos despencarão no vazio do esquecimento muito mais rapidamente do que imaginamos em nossos sonhos mais pessimistas, e toda a dor que suportamos por longas décadas não nos dará sequer um milissegundo de permanência no foco do centro do universo. Ainda assim, se nossas dores saíssem em todos os jornais, isso não nos consolaria em nada, apenas nos tornaria desgraçados célebres, pois atenção e reconhecimento do futuro são sonhos sem sentido nos quais acreditamos meramente porque no presente nunca os temos. Porém, mesmo se os tivéssemos, isso ainda não nos satisfaria, pois nada jamais satisfará aquele que nasceu com sonhos tão grandes e a vista tão curta.
Por mais que tenhamos provas do contrário, nunca aceitamos que nossos filhos, conquistas e ideias não representam uma continuação de nossas vidas. Nossos filhos, saídos de nós, passam a ser seres independentes. Nossas ideias, uma vez comunicadas, já não nos pertencem. Por mais que nos esforcemos em nos eternizar, o próprio autor é esquecido, assim como suas dores. Resta uma conquista anônima que chora sozinha; não há ninguém para ouvi-la; nunca houve. Que lógica há em angustiar-se para garantir que nossos sobrenomes fiquem impressos em cédulas de identidade vindouras ou em livros empoeirados? Isso não fará com que nossas vidas sejam melhores retroativamente. Tudo o que fizemos foi amargurar nossa existência na esperança de garantir que nossos túmulos sejam tardiamente reconhecidos pelo que nunca fomos em vida.
Dentro disso tudo, não somos nada — somos um mau gosto da matéria a serviço da genética, coisa à qual fazemos vista grossa, lançando no futuro esperanças que sabemos ser falsas apenas para não testemunhar o fracasso inevitável de um sonho caolho que abraçamos como uma missão pessoal, e isso pelo mero acaso de a natureza nos tê-lo legado em mãos, instruindo-nos a guardá-lo com nossas vidas — e nós obedecemos. Parece uma piada, mas isso tudo é levado muito a sério. Tentamos colocar o mundo sobre nossos ombros, sofremos longamente para suportá-lo e, se morremos esmagados, achamos isso muito natural. Toda geração coloca sobre si esse fardo e falha, uma após a outra, e isso não nos prova nada. A realidade está bem diante de nós, e se não conseguimos vê-la, deveríamos logo furar os olhos, já que nunca serviram para nada.
Por natureza, somos arrogantes e ambiciosos demais para aceitar a simplicidade de uma vida privada, que reserva sua insignificância para si mesma. Condenamo-nos a uma vida pública atormentada pela necessidade instintiva de provar nosso valor àqueles que estão se lixando para nossas macaquices exageradas. No constante desespero pela satisfação de uma vaidade infantil, nós nos agredimos com metas e expectativas impossíveis, nascidas como uma tentativa de impressionar uma humanidade que sequer dá pela nossa presença. Contudo, conscientes do esquecimento de tudo por todos, não deveríamos, durante nossas breves e falidas existências, nos preocupar em prestar satisfações a ninguém, tampouco em honrar nossos contratos biológicos, pois a vida é uma fraude, e não há chances de vencer. Por mais que nos esforcemos, nunca encontraremos a satisfação que esperamos em nossos objetivos, pois é exatamente essa ilusão que move a vida. Somente uma clara consciência disso nos permitirá entender por que é mais importante dar atenção às nossas vidas que aos nossos sonhos.
No entanto, buscamos a paz desesperadamente, pois assim o quer a natureza. Partimos à guerra em busca de paz, lutamos pela felicidade, e isso só demonstra que não somos menos escravos e irracionais que qualquer outro animal. Nesse ínterim, sofremos intensamente, incansavelmente. Não há tempo para pensar na quietude — é urgente que nos tornemos eternos e importantes o mais rapidamente possível, pois acreditamos que apenas depois disso seremos felizes. Porém, depois disso, seremos apenas pó. Nunca nos damos o descanso que julgamos merecer, pois queremos que a vida o entregue com grandes cerimônias, para que assim possamos nos aposentar da existência com a dignidade de quem cumpriu seu dever, tendo feito tudo o que estava ao seu alcance para, ainda em vida, tornar-se uma estátua do ridículo no museu do absurdo. Não reconhecemos que essa aposentadoria só virá com a enfermidade de nossos corpos, com uma doença que nos torne inválidos, com a velhice. A serenidade da terceira idade decorre justamente do fato de havermos sido expulsos da luta pela soberania. Apenas desistindo da vida nos veremos livres da necessidade de competir, e finalmente conseguiremos, se não apreciá-la, ao menos aceitá-la em toda a sua nulidade como uma distração pequena e individual.
Considerando que a vida é uma tarefa inútil e sem sentido, é aceitável vivê-la, desde que em circunstâncias minimamente decentes. Sem que tenhamos serenidade, sem que vivamos em paz, ocupando-nos daquilo que nos agrada, existir é uma indignidade à qual nos condenamos por irreflexão, pela credulidade com a qual fomos tão generosamente providos pela natureza. Quando transformamos a vida num show de horrores de escravos voluntários guiados por superstições biológicas levadas adiante por nossa fé cega numa tradição genética desvairada, melhor seria partir para o suicídio como a solução mais digna, deveríamos dar logo um tiro em nossas cabeças, aceitando que tamanha insensatez não tem cura. Ainda assim, somos tão míopes que queremos ser alvejados pelos demais, torturados longamente para morrer como mártires que não tiveram paz por culpa do mundo, não própria. Queremos que nossa dor redima a humanidade, e assim todas as gerações futuras sejam felizes por nossa causa, eternamente gratas pelo nosso sacrifício pessoal. Reconhecemos em nós mesmos todos os traços de um fanatismo delirante.
Sabemos que não há metas a serem cumpridas no existir. Se as imaginamos em nossa natureza, ou fora dela, e sofremos para cumpri-las, isso apenas atesta em favor de nossa criatividade em elaborar modos complexos e decididamente ridículos de nos tornamos desgraçados desnecessariamente. A vida é um fenômeno gratuito que se deu por motivo nenhum, e somos beatos o bastante para aceitar a culpa pelos erros desse acaso. Diante do vazio, sentimos uma necessidade doentia de ser escravos daquilo que não serve para nada, que destrói a única paz que poderíamos cultivar para que a existência se tornasse algo tolerável. Sabemos disso tudo, mas não fazemos nada. Até que adquiramos um grão de sensatez, nossa sina é passar nossas vidas gritando, não porque queiramos que nossas vozes ecoem na eternidade, mas porque no silêncio há uma verdade que nos ridiculariza.
Se pensarmos no sentido da vida em si mesma, enquanto um sistema biológico programado para perpetuar-se, vemos que é uma espécie de non sequitur. A vida é algo que não se segue: nós a seguimos, esperando recompensas. Seu sentido não faz sentido, não se justifica logicamente, apenas funciona mecanicamente. A premissa é a genética, a conclusão é a eternidade, e nossas vidas particulares são inferências ilógicas que sustentam a conclusão desse sofisma biológico. Apenas perdemos tempo ao tentar provar algo com nossas existências individuais, pois a vida é uma máquina, não um argumento. Cumprir todas as exigências de nossa natureza instintiva apenas garantirá nossa perpetuação. Se quisermos dar um sentido mais sensato e digno às nossas vidas, sejamos ao menos realistas. Não há como esperar muito além de um desenrolar tedioso de acasos pessoais. As surpresas são poucas. Sabemos qual é o sentido da vida como um todo. Porém, o das nossas só pode ser ir ao banheiro quando quisermos urinar; ir à cozinha quando quisermos nos alimentar; deitarmo-nos quando quisermos dormir; talvez saltar de paraquedas nos fins de semana. Quando precisarmos de forças, devemos recorrer à única saída possível, café. Viver em paz e morrer tranquilos é o máximo que podemos esperar da existência. Exigir mais que isso é condenar-se.
Pelo exposto acima, damos por refutado o valor da vida. Somos apenas uma quimera da natureza: corpo de homem, cabeça de deus. Macacos com uma calculadora cerebral e dor de barriga existencial. Não há motivo para nos levarmos a sério. Não precisamos continuar nos destroçando em louvor à deusa biológica que nos criou, pois isso não dará eternidade nem felicidade a ninguém. Ademais, na sociedade atual, já nos foram dadas todas as condições necessárias para que sejamos capazes de viver à parte dos propósitos originais da vida. Aceitemos que a seleção natural já perdeu o sentido entre humanos, só não saiu de moda por falta de inteligência, por ainda levarmos a sério a vocação de palhaços.
A má compreensão de nós mesmos, guiada por nossa incontornável megalomania, torna-nos eternamente insatisfeitos com o presente. Abandonamos a única coisa que realmente podemos ter em busca de algo que nunca alcançaremos. Somos levados pelo nariz a acreditar num algo mais que jamais existiu, seduzidos pelo espelho como piolhos que sugam o próprio sangue. Ainda assim, não é triste que a vida careça de propósito, mas que tenhamos a capacidade de nos dedicar àquilo que é impossível de ser alcançado, orquestrando nossas vidas inteiras em círculos monumentais que nos levam a sofrer inútil, tola e cegamente para chegar a lugar nenhum. Geração após geração, a humanidade marcha em direção ao mesmo abismo. A burrice nos chama, e nós a ouvimos.
Compreender a natureza da vida nos permite, ao menos, evitar tal equívoco, levando uma existência sem grandes tormentos inúteis, sem grandes paixões destrutivas ou expectativas inumanas. Apenas assim nos livramos do desassossego, do fardo que a natureza colocou sobre nós. No mais, se isso conforta, acrescentemos que não estamos sozinhos nessa empreitada. Temos ao nosso lado os filósofos sensatos, os cientistas honestos e os poetas, coitados. Todos chegaram à mesma conclusão: a vida não é nada, não passa de uma sombra ambulante que se espavona e depois é esquecida. Portanto, ao proceder dessa maneira, não estamos sendo extremistas, apenas extremamente sensatos. Não vemos razões para pular num abismo sem fim apenas porque isso é tradição. Desviamo-nos dele por sabermos que não há nada a ser encontrado em seu interior. Isso nada mais é que ser capaz de ver o óbvio e aceitá-lo.
Como se percebe, essa serenidade que surge em nós após compreendermos a nulidade da vida não diz respeito a uma existência eremítica voltada à meditação. Pelo contrário, trata-se somente de um sinal de maturidade, talvez até de senilidade: o nascimento de cabelos brancos também no intelecto. Compreendemos que, com a vida, e tudo o que a crença nela implica, ou seja, ansiedade, esforço, luta, cansaço, dor, aflição, não temos nada a ganhar, senão cicatrizes. Nossa serenidade precoce é o niilismo enraizando-se e tornando-se maduro, o paroxismo da melhor lucidez — finalmente abandonamos o cadáver de nossas crenças. Vemo-nos livres e descomprometidos perante a vida, perante a morte. O relógio deixa de ser uma ferramenta de tortura. Deixamos de exigir que a vida tenha sentido e ritmo. Podemos dormir à vontade, trabalhar apenas se quisermos, como uma distração, ou mesmo nos demitirmos. Ainda assim, se a ideia de suicídio nos faz hesitar, podemos recorrer à eubiosia, ao antropocentrismo não-praticante, à arte de enganar a vida em benefício próprio. Tornemo-nos mestres do bocejo, matéria ociosa, substância inanimada, meio-termo entre a vida e a morte.
Compreendemos que a vida é uma brincadeira efêmera, e apenas por isso somos capazes de suportá-la sem perder o senso de humor. Sem a ideia da inevitabilidade da morte, já teríamos enlouquecido diante da perspectiva aterradora de uma existência eterna. É um consolo saber que nossas vidas terão um fim. Cada dia é uma contagem regressiva para o encerramento de uma corrida da qual nunca quisemos participar. Nessa corrida não há regras, e todos receberão da morte o mesmo troféu. Então, em vez de correr, escolhemos apenas passear — e também diante disso soubemos conservar uma consciência tranquila, cientes de que a serenidade de nossas vidas é uma fraude, um golpe de mestre. Como bons advogados, soubemos desconfiar do acaso, soubemos explorar as brechas legais da constituição biológica, e orgulhamo-nos disso. Governamos nossas vidas com esclarecimento, conscientes de havermos despertado sozinhos, enquanto os demais dormem na inconsciência animal. Não seremos felizes, coisa que ninguém é, mas também não seremos muito desgraçados, coisa que quase todos são.
Não apenas demos as costas à hipocrisia do mundo, como também renegamos a religião biológica que faz de nós pequenos sísifos da natureza. Quando negamos o valor da vida, deixamos que a pedra role montanha abaixo sem nos atormentar com o fato de isso nos tornar mamíferos malsucedidos. Nada nos causa menos inveja que as conquistas carniceiras dos que se despedaçam e continuam sorrindo, dizendo-se felizes. Não nos interessa tomar parte nesse universo de quadrúpedes que andam empinados. O mundo: deixemo-lo às traças. Nossos mais obstinados esforços nunca servirão para absolutamente nada. Viver é um cada-um-por-si no qual ninguém vence. Não estamos aqui para competir. Não dedicamos nossas fibras musculares à pedreira da existência animal. Não calculamos nosso valor por quanto suor escorre de nossas testas, por quanto sangue falta em nossas veias. Todo valor positivo é um erro de cálculo. Damo-nos por satisfeitos em não disputar pelo papel principal na tragédia epilética da humanidade. Assistimos ao seu desenrolar com um olhar distante que se guarda de morder o queijo nessa ratoeira genética. Não temos nada a declarar com nossas vidas. Respondemos a questão fundamental da existência com um grande bocejo. Queremos apenas viver em paz. Que importa o resto? O resto é apenas a megalomania de nossa burrice.